
talvez
Data 17/04/2010 19:21:11 | Tópico: Poemas -> Amor
| Não tenho janelas nos olhos… Tão pouco resta alguma luz nas palavras… Sóbrio de indiferença Atamanco a palmilha dos sapatos E continuo descalço! Apenas um carreiro de chão argiloso Serve de poleiro às unhas Que cravo desesperadamente no lodo. Não… Não teimo cair… Quero provar a mim mesmo que estou vivo!
Os ulmeiros desistem de incendiar os passos. O caos instala-se num bafo de dragão. O ritual do gelo estala nos copos Arranca à trivialidade das emoções Resquícios de sexo imortalizado Nas estátuas de uma Grécia moderna. O desejo elabora um casulo numa caixa de cartão. No cimo de uma amoreira posso namorar os insectos Com a precisão de uma pétala de luz. O tapete da sala aquece e deduzo que a esperança Adormeceu de bêbada no soalho. Se por um instante o naufrago pensamento do teu corpo Se instala como tatuagem na saliva Logo a quântica do infinitesimal pequeno Vem atordoar-me a certeza de não ser ninguém. Já sei que vou dormir só! Bem posso declamar sonetos na Praça do Bocage, Ou árias de opereta na Avenida Luíza Tody Que a cegarrega dos pombos poisados no meu ombro Estabelece os parâmetros da mesma retórica.
Passei pela Figueirinha e sentei-me naquele bocado de areia Onde fizemos amor pela última vez Como se a lua nunca mais nos viesse iluminar. Trouxe uma mão cheia dela na algibeira do vento. Sabia que não me traria lembranças tuas Mas aproveitei o peso das rochas moídas como punição Pela estupidez de acreditar que o amor é volátil E de que um corpo físico é algo palpável. Sonho contigo… Logo não estás. Coloquei-a depois na ampulheta do esquecimento Para que o tempo passasse sem mim. Ao seguir o tempo levaria comigo as recordações. Ficando… Lembrar-me-ia do que quisesse! Depois saí à rua vestido de esplendor Como se acreditasse que o sol morava na pele. Não me lembro se alguém riu à minha passagem… Ainda antes de olhar para trás Vi a locomotiva do futuro olhar para o relógio Partir apressada sem me cumprimentar. Para onde iria se o futuro é desconhecido? Qual a pressa? Qual o tempo? Ainda bem que me vou ficando pelo presente Onde posso estabelecer a velocidade do segundo Segundo a minha necessidade de tempo…!
Descobri numa lápide que algures o passado me enforcou. Estava lá o meu nome. A foto desaparecera… mas era eu! “Cometeu o crime de amar quando o amor É propriedade das divindades!” Percebi porque morri. Mas isso foi no passado… Procurei a tua campa entre as que se encontravam perdidas No exímio espaço destinado aos condenados E não a encontrei… Deduzi que nunca amaste como os deuses… Talvez por isso sejas mais um sobrevivente. Fiquei com ciúmes da tua paixão… Afinal também poderia ter conquistado a eternidade Fazer dela uma efeméride diária de gargalhadas Passar hoje pelo mundo como um herói. Não tem importância…Limito-me a passar pelo presente Solidário com a perenidade de um sentimento proibido. Talvez por isso caminhe só!
antóniocasado
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