
HOMENAGEM A ALDA LARA
Data 11/04/2010 21:54:55 | Tópico: Sonetos
| TESTAMENTO À prostituta mais nova Do bairro mais velho e escuro, Deixo os meus brincos, lavrados Em cristal, límpido e puro... E àquela virgem esquecida Rapariga sem ternura, Sonhando algures uma lenda, Deixo o meu vestido branco, O meu vestido de noiva, Todo tecido de renda... Este meu rosário antigo Ofereço-o àquele amigo Que não acredita em Deus... E os livros, rosários meus Das contas de outro sofrer, São para os homens humildes, Que nunca souberam ler. Quanto aos meus poemas loucos, Esses, que são de dor Sincera e desordenada... Esses, que são de esperança, Desesperada mas firme, Deixo-os a ti, meu amor... Para que, na paz da hora, Em que a minha alma venha Beijar de longe os teus olhos, Vás por essa noite fora... Com passos feitos de lua, Oferecê-los às crianças Que encontrares em cada rua...
ALDA LARA
1
“Que encontrares em cada rua” Um passageiro que se quer Muito além do que puder Se nesta história continua O caminheiro mais audaz Nas faces esfomeadas Tantas misérias demonstradas Para quem passa tanto faz Não se percebendo o sinal Da injustiça que vai grassando Tornando este mundo nefando Onde pudesse triunfal, Assim se percebendo a cena Verdade tão clara envenena.
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“Oferecê-los às crianças” Os tormentos que são tenazes E ao perceber assim as fases Tão diversas das esperanças Não se pode ou nunca pude Perceber sinais da justiça Aonde impera esta cobiça Seguindo alheia a juventude Oferecer um só momento Tocado com ternura e fé Ao romper dos pés a galé Quem sabe encontraria alento Quem tanto necessita a luz Aliviasse ao menos, a cruz.
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“Com passos feitos de lua,” Esperanças muito além O que tanto não contém Tantas vezes continua No vazio que se vê Numa audácia mais profana Quanta vezes já se engana Sem saber algum por que Desta insânia que domina Cada passo desta gente, Pois se amor é tão urgente Ao perder mapa da mina Morte exposta a cada afeto, De vazios me repleto.
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“Vás por essa noite fora” Andarilho do futuro Tendo tudo o que procuro Boa sorte te decora, Segue contra a correnteza Da injustiça sem sossego E deveras tanto apego Traz a sorte com certeza Pra quem tanto assim porfia Noite e dia, vida inteira A palavra é mensageira Traduzindo alegoria Para quem se fez além E o universo em si contém.
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“Beijar de longe os teus olhos,” Onde tanto poderia Conhecer uma alegria Mesmo envolta por abrolhos A certeza de um momento Feito em tanta claridade Inda mesmo que se agrade E permita novo alento Caminhando sem destino Tantas vezes me perdi, Mas encontro agora em ti O calor em que fascino Bebo a fonte mais suave Sem ter medo que me agrave.
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“Em que a minha alma venha” Transcendo ao próprio ser Nas entranhas do prazer Tanta força já contenha E permita o quanto pude Sonhador inveterado Bebo as sombras do passado E traçando em atitude Passo rumo ao que virá Nada mais eu temeria A verdade sendo a guia O meu sol já brilhará Sem saber de qualquer sombra Que decerto sempre assombra.
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“Para que, na paz da hora,” Nada deixa pro final, A certeza sem igual Minha sorte revigora Nada temo e nem pudesse Quem decifra cada passo E se faço ou me desfaço Sei de cor o rumo e prece Cavalgando pelos prados Das estradas sei as manhas E se adentro estas montanhas Os caminhos decorados Nada impede que se creia Nem na sorte, minha e alheia.
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“Deixo-os a ti, meu amor” Os caminhos que descubro, Meu olhar deveras rubro O carinho furta-cor Galopando céus diversos Andarilho das estrelas Se eu pudesse enfim contê-las E trazê-las pros meus versos Transcendendo à própria vida Nas ardências do desejo Quando a sorte em ti eu vejo Do caminho não duvida Quem se fez em liberdade, Não carrega uma saudade.
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“Desesperada mas firme,” Sorte dita qualquer luz E deveras me conduz Mesmo quando não confirme Cada passo dita o tanto Quanto pude descobrir Se decerto há um porvir Nele tento sem quebranto Na desdita conhecida Nas entranhas do quem fora Alma tanto sonhadora Esquecendo a própria lida Liberdade conquistada Com a faca sempre armada.
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“Esses, que são de esperança,” Na verdade muita vez Ao cobrir o que se fez Com ternura ou firme lança Nas estradas as tocaias Nos caminhos tal espreita Quando tanto se deleita Almas outra não lacaias Bebem sangue das escravas Tomam goles em tortura Tendo além da noite escura Do que tanto queres lavas Mesquinhez ditando regras Quando o sonho não integras.
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“Sincera e desordenada” Sorte tanto indulgencia Quem deveras a alegria Tantas vezes não diz nada Se eu pudesse noutro tanto Geraria novo rito E se ainda teimo e grito Por mais forte velho canto O quebranto muito pode E transcorre em minhas veias Quando em fúria me incendeias Nem a sombra mais me acode E desvia o rio quando Outro tempo porfiando.
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“Esses, que são de dor” Nada posso dizer Se não sei do prazer Se não sou trovador Se nada posso ainda Contra o quanto mais quis O meu verso no bis Se nada mais deslinda Mergulho num abismo E se tanto não vejo Pode mesmo o desejo E ainda sim eu cismo Vagando contra a luz Falena; não me opus.
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“Quanto aos meus poemas loucos,” Nada faço nem faria Se deveras a alegria Dita dias tanto roucos Mergulhando no vazio Navegando insensatez Tanto quanto ainda crês Produzindo novo estio Geração pós geração Renascendo novo encanto No que ainda tento e canto Procurando a direção Sei da sorte mais atroz E decerto bebo a foz.
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“Que nunca souberam ler” Os anseios deste povo E se canto e mesmo aprovo Os caminhos do saber Não podia acreditar No que um dia se fez meu Meu caminho se perdeu Noutro rumo a navegar Das histórias do passado Dos momentos mais presentes O que tanto já não sentes Pode ser o meu legado Para as sendas do futuro É por isso que amarguro.
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“São para os homens humildes,” Os desejos da esperança O meu verso agora alcança Julietas e Matildes Margaridas e os Antônios Tantos outros campesinos Com diversos vãos destinos Nos olhares dos campônios Lavradores, lavradoras Dos senhores nem sinal, O meu canto é sempre igual, Almas puras sonhadoras O meu verso é para quem Sabe o que esta dor contém.
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“Das contas de outro sofrer,” Das andanças pela terra Onde o sol na lua encerra A beleza sem poder Sem diversa qualidade Do que sempre é tal igual Quando amor diz ritual Canto sempre à liberdade Na cidade, vila e campo No sertão, nas pradarias Onde estrelas são meus guias Na esperança agora acampo E vivendo sem temor, Socialista, sim senhor!
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“E os livros, rosários meus” São as armas de quem luta Vencendo esta força bruta Caminhando a cada adeus Mortos tenho nesta senda Na seara mais fecunda Solidão quando me inunda A vontade que se atenda Com terror e com bravura Sem temor armas expostas As feridas formam crostas Na batalha com ternura Nas clareiras, nos anseios Sanguinários sem receios.
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“Que não acredita em Deus” Nem nos deuses dos engodos Os caminhos, digo todos E não vivo pelos breus Se eu batalho pela sorte Se esta luta se bendiz Coração tanto aprendiz Procurando sempre um norte Não temendo algum canhão Nem tampouco a baioneta A minha alma se completa Nesta imensa multidão Onde a fome dita a guerra E a justiça não se encerra.
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“Ofereço-o àquele amigo” O meu sangue, minha glória E decerto esta vitória Servirá como um abrigo A quem possa sem temor Encontrar nesta batalha Mesmo o fio da navalha Traduzindo o puro amor, Caminhando por searas Mais diversas doloridas Transformando nossas vidas Quando em lutas escancaras O futuro em nossas mãos Cultivando belos grãos.
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“Este meu rosário antigo” Que carrego no meu peito Como um sonho insatisfeito Cada curva outro perigo Procurando algum apoio Onde tanto poderia Perfilar a fantasia Separar trigo de joio E seguir em noite mansa Contra os medos mais atrozes Pois ouvindo nossas vozes A esperança nos alcança E prepara outro momento Onde cesse este tormento.
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“Todo tecido de renda” Que fizesse com ternura Quem deveras já procura Tanto sonho que se atenda Com sabedoria plena Com a lucidez da luta Quem conhece não reluta Quando a sorte já lhe acena E ao mudar a caminhada Pretendendo um novo sol Dominando este arrebol, Noutro rum, nova estrada Traduzindo o socialista Delirar que já se avista.
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“O meu vestido-de-noiva,” Lua branca em pleno céu Esperança deixo ao léu Tendo a sorte como noiva Quem procura o casamento Bebe a história e nada teme Nem o corte que inda algeme Nem o medo do tormento Mesmo quando houver tal bruma Na presença de um vulcão Liberdade é qual tufão A batalha não esfuma Sangue escorre, medo doma, Não conheço uma redoma.
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“Deixo o meu vestido branco,” Ao amor que tanto quis E se queres ser feliz Necessitas ser mais franco Nada cale a tua voz Nem o medo nem tortura Nem tampouco esta amargura Nem a fera mais atroz Liberdade é nossa estrela Nela guio cada passo O futuro agora traço Na certeza de contê-la Rasgo céus no meu corcel Galopando em fogaréu.
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“Sonhando algures uma lenda,” Aonde tanta luz se faz O meu caminhar mais audaz Que a todo teu desejo atenda Percebendo então cada dia Como se pudesse sonhar Muito além do quanto o luar Traduziria a poesia Numa tortura e na amargura Ao vencer com toda certeza Não encontrará correnteza Nem tampouco seja a procura Em vão aquilo que te impeça Encontrar no sol a promessa.
25
“Rapariga sem ternura,” Sem amor e sem carinho No teu colo me avizinho Desvendando com brandura Cada parte deste sonho Libertário coração Nele toda a direção Possa ter claro e risonho Caminhar para o futuro Nesta senda verdejante Tanto amor num raro instante Neste canto em procuro Ter nas mãos a senda rara Que esta liberdade aclara.
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“E àquela virgem esquecida” Pelas benesses deste sonho Deixo o coração mais risonho Ao se perceber assim vida Aonde tanto se quis a sorte Não poderia haver tristeza E deveras esta certeza Dia a dia já nos conforte Podendo saber desta luz Quem caminha com olhos mansos E vagando pelas estrelas Com a força de poder tê-las Encontrará no fim remansos Aonde toda a glória traz Uma vida perfeita em paz.
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“Em cristal, límpido e puro” Minha herança para quem Sabe o quanto já convém Neste encanto que procuro Caminhar de peito aberto Ao vencer a tempestade Sem ter nada que degrade Esta luta eu não deserto Sendo assim um sonhador Dos meus dias, meses, anos Não suporto desenganos Aflorando sempre amor Onde tanto se fez treva Liberdade agora ceva.
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“Deixo os meus brincos, lavrados” Com suor, sangue e batalha Quem deveras nunca falha Já sabendo dos recados Vence as guerras mais terríveis Não encontra mais temores E nas sendas dos amores, Planta os sonhos mais incríveis Bandoleiro coração Sabe as tramas, teias tantas E decerto sempre encantas Com a força e a decisão Deixo a lua como guia E nos dedos poesia...
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“Do bairro mais velho e escuro,” Das entranhas duros guetos Ao fazer os meus sonetos Minha sorte já procuro No caminho mais audaz De quem tanto batalhava Uma alma sendo escrava Não conhece nunca a paz E se faz além de tudo Mensageira de uma luta Vencendo esta força bruta Mas enquanto não me iludo, Vagabundo coração Na justiça a direção.
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“À prostituta mais nova” Ou à velha carpideira Esperança uma bandeira Que a verdade sempre aprova E o desejo de vingança A vontade de lutar Enfrentando sem parar Quando à fúria já se lança Coração aventureiro De quem tanto ora porfia Tendo em si a fantasia Sabe o rumo verdadeiro Socialismo e desde já Minha estrela guiará.
VALMAR LOUMANN
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