
10.A Gaveta da Pedra
Data 04/04/2010 15:21:21 | Tópico: Poemas
| Uma vez, uma voz bateu-lhe à porta.
O cão quer entrar, pensaste tu. E não reparaste que já dentro de ti ele habitava. Capaz de te secar as chuvas. Montar a ânsia do fogo. E comer-te o silencio. Tens um cão dentro de ti. É ele que te vende o amor e o coração. A tua cidade e o teu sono. E tu desejas acordar com um país erecto na boca. Uma língua sorvendo as ruas da tua Europa. Salivas, a tua língua. E a tua boca.
Já fizeste esta viagem várias vezes
E arrastas para ti outros braços. Alugas quartos e cantas outros corpos. Mas como poderias saber, As árvores também nascem nas pedras áridas. E que Nem todas as sementes morrem Na metamorfose dos ossos. Uma, Uma delas fecundou o teu peito. E o cão canta preso às coisas tristes da janela sensível. Na cidade que te alimentou a árvore. As estrelas também morrem (pensas) Como que, as querias apagar. São putas. São putas como tu que brilham no mais escuro da noite. Que se dão ao prazer do fogo. E tu querias ser unicamente estátua. Agonia-te esta sensação de sentires tesão. O cão canta dentro de ti. Outros atravessaram o teu jardim inúmeras vezes. Nunca os amaste. Mas sempre soubeste a razão. Por isso bebias o líquido espesso das suas bocas e alugavas o teu coração. Fazias tudo isto porque o cão dentro de ti precisa de cantar. E tu gostas dele.
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