
Sinceramente...
Data 04/04/2010 01:20:02 | Tópico: Crónicas
| A professora de Português entrara na sala muito “disposta”. Há muito que ela vinha observando o seu enorme aluno Paixão, de quase dois metros de altura. Ele não queria nada, pensava ela. Sua doce vida compunha-se de tudo: colas, conversas, paqueras, etc, etc –menos estudo!
Como péssima era pouco para qualificar sua situação em Português, o alunão tentou convencer a irmã da professora de Português a defender sua causa perante esta.
Agora, em sala de aula, ele queria saber como iam as coisas. Limpando a garganta e caprichando numa atitude humilde e “sincera”, ele perguntou:
- Vai ter prova amanhã, não é, professora? - Vai, é? - Sim, você falou outro dia... - Se você sabe, por que está perguntando? - É que... bem... eu... é que eu tinha tirado 2 na primeira prova e 1 na segunda, como a média mensal é 7, é capaz de não dar... - Pelo menos em Matemática você está ótimo. - Será que você podia fazer o favorzinho de deixar a prova de amanhã valer pros três meses? - Paixããããããooo! - Poxa, Gina, sinceramente, só você que vai ser má? - Paixããããããooo! - É que eu conversei com a sua irmã e..., sinceramente, ela disse que ia conversar com você... - Explique-me por que você tirou 2 e depois tirou 1, e ainda conseguiu faltar a mais de 20 aulas neste curto período? - Sinceramente, professora, eu sou muito ocupado e moro longe... - Que??? Você mora ali mesmo, perto da minha casa e eu o vejo frequentemente se dirigindo para o campo de futebol, rapaz! - Sinceramente, professora, todos os outros professores resolveram repetir a nota. - Mas eu dei duas provas, dois trabalhos de pesquisas e duas redações; tudo valendo nota para os dois meses passados, mas o que fez o senhor? “precisou” faltar às provas, “esqueceu” de entregar os trabalhos e “não sabia” fazer as redações! - Sinceramente, professora, foi com muito esforço que eu fiz as provas mais tarde... - Sim, aí tirou 2 e 1. - Sinceram.. - Puxa, Paixão, quantos “sinceramente” você já falou aqui? - Você quebou o galho pro Dilson. - Ele está servindo no Exército, e mesmo assim apresentou um trabalhinho, você nem isso fez, morando a-l-i. - Mas e a Roberta? - Ela estava doente e escreveu uma carta para a Secretaria do Colégio. - Eu também estava doente, professora, sinceramente. - Doente? Você passa para o campo de futebol exibindo o maior físico!!! - Pergunta pro Orlando, ele é que sabe da minha vida...
(A gozação foi geral: Eu, hein! Fiu, fiu, Paixãããoo! Que que é isso, minha gente, vai lááá´!). Acalmados os ânimos, o diálogo prosseguiu:
- Fazer aquele trabalho não ia adiantar nada, professora, sinceramente. - Como não ia? Até o Gésilo, que é chato pra burro, adorou a nota que eu lhe dei ...não foi Austri? - É... (respondeu timidamente o gajo). - Professora, eu precisava muito que você repetisse a nota de amanhã, sabe, sinceramente... - O que vocês acham (perguntou à turma) devo repetir a nota que ele tirar amanhã? - É claro!!! (respondeu o Gésilo, que no fundo também suspirava por uma colher-de-chá). Isso mesmo, professora! (apoiou um outro cuja última nota fora 1,5).
Após mais algumas argumentações de parte a parte, a professora resolveu atender ao pedido do aluno, já que “de uma boa conversa ninguém escapa”.
Tres dias depois estava o pobre do Paixão vivendo perfeita “fossa” num canto do Colégio. Aproximei-me e inquiri-lhe da desdita, ao que ele estendeu-me a prova de Português que trazia escrito em vermelho: “Sinceramente, 0,0,0”).
Xenon, o Mentalista www.mentalismo.net
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