
Arrancadas a fórceps
Data 20/03/2010 10:34:00 | Tópico: Poemas
| Caminhei com os pés dilacerados pedras soltas pontigudas, cortantes como cristal. Reclamei ao vento e à areia: o vento fechou-se em vento e da areia nem sinal. Perguntei à chuva: ó chuva porque levaste a macieza do areal?! A chuva fechou-se em nuvens e das nuvens em temporal. Sem saber o que fazer virei-me para a mãe terra: o que foi feito do teu carinho, tenho cortes dilacerantes que fiz pisando o caminho?! Cortes? Em mim não!… O que tu vês são flores de texturas diversas e de muitas cores, saídas das minhas entranhas à custa de muitas dores. São filhas dum Inverno vadio que me violou e, nessa penetração forçada, rasgou-me as carnes lisas, abriu ventres, nasceram rios taparam-se rios, as pedras são flores. São flores de lágrimas, derramadas dias a fio, sem sol, sem luar, anémicas mas fortes, feitas de mágoas, arrancadas à força, em partos com fórceps, sem sutura e anestesia... São flores de dores e de melancolia.
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