
ESPIRAL DE SONETOS - HOMENAGEANDO ALVARES DE AZEVEDO
Data 16/03/2010 18:30:26 | Tópico: Poemas
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Pálida, à luz da lâmpada sombria, Sobre o leito de flores reclinada, Como a lua por noite embalsamada, Entre as nuvens do amor ela dormia!
Era a virgem do mar! na escuma fria Pela maré das águas embalada! Era um anjo entre nuvens d'alvorada Que em sonhos se banhava e se esquecia!
Era mais bela! o seio palpitando... Negros olhos as pálpebras abrindo... Formas nuas no leito resvalando...
Não te rias de mim, meu anjo lindo! Por ti - as noites eu velei chorando, Por ti nos sonhos morrerei sorrindo -!
Álvares de Azevedo
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“Por ti nos sonhos morrerei sorrindo” Após tantos momentos mais sombrios, Enfrento meus temores, desafios Enquanto um novo tempo; em ti deslindo
Vagando por tormentas, mares tantos, Distante de teus braços, teus carinhos Perfaço os dias tristes e sozinhos A cada amanhecer, mais desenganos.
Pudesse ter enfim concretizado Desejo que domina e não permite Viver além do frágil, vão limite Calando no meu peito, o sonho, o brado.
Pudesse ter aqui bem junto a mim, O amor que tanto quero e não tem fim...
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O amor que tanto quero e não tem fim Tomando o coração de um sonhador, É como se cevasse a bela flor Tornando mais sublime o meu jardim.
Mas quando a noite chega solitária E tudo o que eu queria não consigo, Percebo tão somente o desabrigo E a vida se transforma. Temerária...
Não tendo mais sequer algum momento Aonde possa ver a paz que quero, O amor se torna então, terrível, fero E traça a dor imensa, o desalento.
No sonho te imagino, em alvorada “Sobre o leito de flores reclinada.”
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“Sobre o leito de flores reclinada” Trazendo em teu olhar doces lembranças Ao longe, no horizonte já te lanças Vagando por distante e flórea estrada.
Percebo quanto és bela enquanto sonhas Num átimo também sonho contigo E tento vislumbrar suave abrigo Nas sendas mais tranqüilas e risonhas.
A lua se declina sobre ti E beija tua pele mansamente E nesta maravilha se pressente O amor que há tanto tempo; eu já perdi.
E ao vê-la enfim concebo desafios Após tantos momentos mais sombrios.
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Após tantos momentos mais sombrios Encontro o grande que tanto quis E sendo por instantes, tão feliz Refaço o meu caminho em tais estios
E teimo contra a força dos enganos De tantos desafetos conhecidos, Os dias em tempestas já vencidos Agora me entregando aos novos planos
E tendo esta alegria de poder Sentir o teu perfume junto ao meu Quem tanto sem defesas já se deu Começa neste instante então a crer
Na sorte pela angústia contrastada “Como a lua por noite embalsamada.”
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“Como a lua por noite embalsamada.” Encontro o meu olhar embevecido E bebo a claridade, enternecido Sabendo que depois vem a alvorada
E o sol que nos abrasa num segundo Azulejando o céu outrora prata, E a sorte benfazeja desacata O medo do passado, vão profundo.
E assisto ao renovar de uma esperança Após a imensidão de um tempo escuso O amor que tanto quero, reproduzo Trazendo ao caminheiro uma mudança
Deixando para trás sonhos vazios Enfrento meus temores, desafios.
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Enfrento meus temores, desafios E sei do quanto amor se faz capaz Carinho que deveras satisfaz Serena dias áridos, sombrios
Estando junto a ti eu me permito Saber da farta luz que nos guiando Tornara o meu caminho bem mais brando E o tempo de viver bem mais bonito.
A deusa feita em pálida figura Sonhando com momentos mais felizes, Sanando dos meus medos cicatrizes Trazendo para mim alento e cura
Descortinando o Paraíso então eu via: “Entre as nuvens do amor ela dormia!”
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“Entre as nuvens do amor ela dormia” E alçando raros céus em claridade, Enquanto a fantasia assim me invade Tornando bem mais belo o dia a dia,
Senti-la é como ter no firmamento Um sol que se irradia em arrebol, No olhar tão deslumbrante este farol Por onde este caminho eu oriento
Não deixe que este amor termine, pois Sem tê-la minha vida nada vale, Não deixe que esta voz um dia cale, Não haverá sequer nada depois
Mergulho neste encanto belo e infindo Enquanto um novo tempo; em ti deslindo.
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Enquanto um novo tempo; em ti deslindo Adentro os oceanos do meu sonho E a cada temporal a paz proponho Sabendo deste instante amável, lindo.
E quando me percebo em tuas mãos, Teus braços me enlaçando com ternura, Tomado tão somente por brandura Os medos se tornando bem mais vãos.
Mergulho nos teus olhos, sinto em ti O amor que tantas vezes procurava Ainda sob uma onda forte, brava A paz que eu necessito, descobri
E quando uma esperança se perdia: “Era a virgem do mar na escuma fria.”
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“Era a virgem do mar na escuma fria” Tocando mansamente a clara areia No canto maviosos da sereia Uma alma se entregando desafia
Os medos e temores de Odisseu Traçando com seus sonhos novo cais, Momentos que bem sei são magistrais E neles todo amor me ensandeceu.
Vestígios do que fora no passado, Somente solitário navegante Agora ao perceber tal diamante Também por ele sou iluminado.
Depois de tantos grandes desencantos Vagando por tormentas, mares tantos.
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Vagando por tormentas, mares tantos Encontro quem deveras eu queria, Depois da noite amarga dura e fria, Enfrentando temores e quebrantos
Decifro em meu caminho nova senda E beijo tua boca em carmesim, Aonde se fizera o meu jardim A flor mais bela agora se desvenda.
E ao florescer permite que eu conceba Supremas maravilhas, fabulosas A mais perfeita rosa dentre rosas, Deixando que seu cheiro se perceba
Assim como a sereia desejada “Pela maré das águas embalada!”
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“Pela maré das águas embalada” Trazida à branca areia feita em sonho, Cenário tão fantástico eu componho Depois da dura noite ultrapassada.
Traçando na alvorada um raro brilho, Distante das tempestas mais ferozes, Ouvindo dos prazeres suas vozes, Na senda mais sublime agora trilho.
E vejo ser possível novo dia, Aonde em poesia me desfaço, Depois de tanta luta e do cansaço, O coração em paz, enfim sorria.
Não quero mais seguir toscos caminhos Distante de teus braços, teus carinhos.
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Distante de teus braços, teus carinhos Não posso mais saber felicidade E o medo do tormento que ora invade Deixando os pensamentos mais sozinhos.
Audaciosamente busco então Quem possa me trazer alento, pois Sem nada no momento nem depois A vida se perdendo em direção.
Nefastas ondas feitas desencantos Atordoando assim, meu caminhar Depois de tantas noites sem luar As nuvens escorrendo turvos mantos
Pressinto maviosa esta chegada: “Era um anjo entre nuvens d'alvorada.”
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“Era um anjo entre nuvens d'alvorada” Trazendo enfim alento a quem sofria, A vida se mostrara outrora fria Agora poderia estar mudada.
Vencendo as minhas ânsias mergulhei Nos braços desta deusa feita em luz, Amor quando demais sempre conduz À mais inglória e triste, dura grei.
Não pude perceber quando deveras Finda-se o caminho benfazejo E toda a solidão que ora prevejo Transforma mansidões em cruéis feras
E ao ter em minha frente descaminhos Perfaço os dias tristes e sozinhos.
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Perfaço os dias tristes e sozinhos Amaldiçoada noite em que pensara Ter minha vida agora mansa e clara Envolto por amor em teus carinhos.
Depois o tempo trouxe a tempestade E tudo desabando dentro em mim, O amor foi devagar, chegando ao fim, E a solidão terrível já me invade.
Pedindo então clemência, quero a paz. E tudo o que vivera está desfeito, A dor invade e assola então meu peito E nem sequer o sonho satisfaz
Matando pouco a pouco a fantasia “Que em sonhos se banhava e se esquecia!”
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“Que em sonhos se banhava e se esquecia” Jamais imaginara ser plausível Que o mundo de repente, imprevisível Tornara a noite quente agora fria.
Medonhos pesadelos me açoitando Aonde poderia ser feliz Se a própria realidade me desdiz E as esperanças fogem como um bando
E deixam tão somente esta tortura Longe de ti não vejo mais o brilho Da lua nem deveras quando trilho Cansado de lutar, tanta procura
E assim se revelando noutros planos A cada amanhecer, mais desenganos.
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A cada amanhecer, mais desenganos Jamais eu poderia imaginar Ausente dos meus olhos o luar, Momentos de prazer agora danos.
Aguardo alguma luz que ainda venha Mudar a realidade e nada vem, A noite se repete e sem ninguém Do Amor já não conheço nem a senha.
Cevara com ternura em solo agreste Semente algum enfim ali brotara, A vida que pensei tão mansa e clara Diversa da verdade que me deste
A vida que pensara em dia brando “Era mais bela! o seio palpitando...”
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“Era mais bela! o seio palpitando” A divindade em vida que julgara Ser minha em noite imensa bela e rara, Porém o meu caminho desabando
Já não comporta mais felicidade São tantos os enganos que carrego Andando em senda amarga, sigo cego Somente o medo teima, adentra, invade...
Não pude ser feliz. Ah quem me dera Viesse alguma estrela e me trouxesse O amor que se fazendo então a messe Traria novamente a primavera
E o sonho que pensara no passado Pudesse ter enfim concretizado
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Pudesse ter enfim concretizado O sonho que deveras me tortura, A vida não seria tão escura O amor já não seria malfadado,
Percebo quão divino deve ser Sentir uma presença que se espera, Somente a solidão, cruel pantera Tomando já de assalto o meu viver.
Não quero e nem consigo mais sentir As ânsias de um amor mais que perfeito, Porém qualquer carinho é meu direito Ditando alguma luz no meu porvir
Ter de manhã num sonho quase infindo “Negros olhos as pálpebras abrindo...”
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“Negros olhos as pálpebras abrindo” Depois de noite em pleno temporal, Momento na verdade triunfal Ternura em ar mais manso e bem mais lindo.
Talvez seja possível crer no dia Aonde isto se torne realidade, Rompendo do silêncio algema e grade, Uma alma feita em luz já se faria
Liberta e tendo os olhos no horizonte Vagando por clarões, raro desejo, O amor ensandecendo assim prevejo Bem antes que este mundo desaponte...
Porém a dor cerceia em vão palpite Desejo que domina e não permite
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Desejo que domina e não permite Que a vida assim prossiga em plena paz Do quanto amor se mostre mais capaz Não respeitando então qualquer limite.
A sorte desairosa toma a sala E quando se percebe mais tranqüila A solidão deveras se perfila Fazendo da esperança uma vassala.
Tempestas entre nuvens grises vejo E sinto que talvez não haja mais Além destes diversos temporais A realização de algum desejo.
Apenas nos meus sonhos vislumbrando “Formas nuas no leito resvalando...”
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“Formas nuas no leito resvalando” Numa ânsia de prazeres incontida Assim me prepara para a vida, Sem perguntar sequer aonde ou quando.
O tempo desfiando este novelo Não deixa mais espaço para o sonho, E tudo o que eu pensara mais risonho Medonho, como um triste pesadelo.
Vencido sem poder nem reagir, Morrendo dia a dia percebendo Distante do que fora um estupendo Momento, tão vazio o meu porvir
Realidade atroz já não permite Viver além do frágil, vão limite
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Viver além do frágil, vão limite Já não consigo mais pensar em nada Uma alma que se sente desprezada Jamais aceita alguém que delimite
O sonho que é talvez o que me reste, E tudo se perdendo, menos ele, Por mais que novo tempo se revele, O solo permanece assim agreste.
Vieste então em forma de ternura Trazendo em teu olhar uma esperança O meu amor agora a ti se lança Depois de tantos anos de procura,
Por isso meu olhar tolo se abrindo “Não te rias de mim, meu anjo lindo!”
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“Não te rias de mim, meu anjo lindo” A vida jamais fora justa e enfim Agora que floresce em meu jardim A rosa mais bonita já deslindo
Um dia mais tranqüilo, até quem sabe Podendo então dizer que sou feliz, A sorte muitas vezes contradiz E o tempo já não serve nem me cabe.
Vencido pela angústia do não ser, Terríveis noites feitas solidão, E tendo de repente enfim meu chão, Mergulho sem defesas no prazer.
Depois de tanta dor no meu passado Calando no meu peito, o sonho, o brado.
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Calando no meu peito, o sonho, o brado Não pude perceber quanta beleza Trazida pela própria natureza Mudando com certeza o velho fado.
Estrelas desabando sobre nós Traçando com seus brilhos poesias, Além de qualquer dor, temor, me guias Matando o sofrimento vil algoz.
Serenas minha vida com sorriso, E tendo cada passo assim descrito, Jamais me percebendo mais aflito, Adentro devagar o Paraíso.
Bem antes de viver tal sonho brando “Por ti - as noites eu velei chorando.”
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“Por ti - as noites eu velei chorando” E agora que percebo, estás comigo, Entendo como ausente o desabrigo E o tempo pouco a pouco transformando.
Vivera solitário caminheiro, Buscando qualquer porto que abrigasse Depois de tanto medo, dor e impasse, Agora me entregando por inteiro.
Sabendo desde já o que mais quero Ninguém pode conter meu canto em paz, Amor quando em amor se satisfaz O mundo se tornando mais sincero,
É como se o mais belo querubim Pudesse ter aqui bem junto a mim.
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Pudesse ter aqui bem junto a mim O amor que tantas vezes me guiara A vida cicatriza a velha escara E o mundo encontra a paz, até que enfim.
Vencido pelos medos do passado, Há tanto desejara algum momento Aonde se pudesse ter no alento Divino pensamento abençoado.
E tendo esta certeza que me trazes Não posso me calar, sigo contente, A vida noutra vida se pressente E assim pressentimentos são audazes
E vejo num instante claro e lindo “Por ti nos sonhos morrerei sorrindo -!”
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“Por ti nos sonhos morrerei sorrindo ” E tendo tal certeza poderei Seguir sem ter tormentas nesta grei, Sabendo do final em flor se abrindo.
Mesquinhas noites frias do passado, Insanas e terríveis tempestades, Enquanto com carinho tu me invades, Deixando o coração apaixonado
Jamais se permitindo outra ilusão Tampouco o sofrimento me tomando, Viver este momento imenso e brando Certeza das belezas que virão.
Floresce em maravilha no jardim O amor que tanto quero e não tem fim..
MARCOS LOURES
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