
ESPIRAL DE SONETOS - Enquanto quis Fortuna que tivesse HOMENAGEANDO LUIS DE CAMÕES
Data 15/03/2010 22:32:01 | Tópico: Poemas
| Enquanto quis Fortuna que tivesse esperança de algum contentamento, o gosto de um suave pensamento me fez que seus efeitos escrevesse.
Porém, temendo Amor que aviso desse minha escritura a algum juízo isento, escureceu-me o engenho co tormento, para que seus enganos não dissesse.
Ó vós que Amor obriga a ser sujeitos a diversas vontades! Quando lerdes num breve livro casos tão diversos,
verdades puras são, e não defeitos... E sabei que, segundo o amor tiverdes, tereis o entendimento de meus versos!
Luis de Camões
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“tereis o entendimento de meus versos,” Assim quando notardes os caminhos Por vezes são fugazes e sozinhos, E quando estou distante; mais dispersos.
E tendo-vos amado mais que posso Verdades incontidas sobrevêm Andando da esperança mui aquém Percebo quão constante ando assim, vosso.
Encanta-me o saber do Vosso Amor Vencendo os mais diversos sofrimentos, Adentrando-me então meus pensamentos, Saber-vos com carinho é qual louvor.
Das águas cristalinas, pura fonte, O Amor que nos conforta, a foz aponte...
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O Amor que nos conforta, a foz aponte E adentre Mar imenso em belas sendas Distante dos receios, fujo às lendas Envolto em rara luz neste horizonte.
Servir-vos e poder seguir adiante Com passos destemidos, vigorosos, Sabendo quão diversos, caprichosos Caminhos condizentes; diamante.
Ao enfrentar tempestas e procelas, Navego em águas frias e sigo ausente Do siso necessário, e se pressente Atado às vossas mãos, sublimes celas.
Selando com prazeres raro Amor Nesta esperança clara que se assoma, E toda esta magia assim nos toma, Traçando algum caminho redentor.
Invade-me e controla o pensamento “esperança de algum contentamento.”
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“esperança de algum contentamento” Domina cada passo rumo ao Norte Aonde se sanando dor e corte, O Amor trazendo enfim, suave alento.
Ser-vos-ia demais pedir num sonho Belezas entre tantas, mais perfeita, O meu olhar em vós, já se deleita, Enquanto um Paraíso, enfim componho.
Por ter-vos tão somente nos meus olhos, Sabendo-vos Senhora dos meus dias, Espalham-se sobejas alegrias, Deixando no vazio tais abrolhos.
Iremos dois libertos passarinhos Assim quando notardes os caminhos.
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Assim quando notardes os caminhos Erguer-vos mui além do que pensara, Uma ânsia delirante, bela e clara, Domina as cercanias, nossos ninhos.
E sendo-vos fiel, lacaio e servo Num sôfrego desejo a vós me rendo Momento que deveras estupendo Guardado dentro d’alma inda conservo.
O Amor em ardentias convertido, Comporta os sonhos meus, amada Dama, E quando esta vontade vos reclama, Nos medos contumazes de um olvido
Sentindo assim liberto, solto ao vento “o gosto de um suave pensamento.”
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“o gosto de um suave pensamento” Tomando a direção de antigos dias, E nele se espalhando fantasias, Encontro finalmente o meu alento.
Viver em vossos sonhos mais felizes, Singrando os oceanos mais distantes, Olhares tantas vezes radiantes Já não comportam mais medos, deslizes.
E sendo-vos servil, Senhora Minha, O Amor que trago em mim nunca descansa E vive tão somente esta esperança Que dos vossos quereres se avizinha
Os dias sem vos ter, tão pobrezinhos, Por vezes são fugazes e sozinhos
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Por vezes são fugazes e sozinhos Momentos em que vós não percebeis Amor normatizando suas leis Sorvendo em vossos lábios raros vinhos
Açoda-me a vontade de vos ver E quando vos ausenta, a vida inglória Tornando toda a noite merencória, Ausente de meus olhos, o prazer.
Sentir-vos num instante de ternura, É tudo o que minh’alma já deseja, E quando mais sublime é mais sobeja Trazendo a imorredoura luz da cura
O Amor por mais que nunca o merecesse “me fez que seus efeitos escrevesse.”
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“me fez que seus efeitos escrevesse.” O Amor ao dominar meu pensamento Deixando no passado o sofrimento Aonde do prazer não sei a messe.
E vendo em vossos olhos farto brilho, Ao ter tanta Fortuna em vos saber Ao lerdes meus destinos posso ver A senda incomparável que ora trilho.
Pertenço-vos Senhora e nada além Do sonho de ser vosso me sustenta, Navego em vã procela e na tormenta Uma esperança audaz aos olhos vem
Momentos radiosos ditam versos E quando estou distante; mais dispersos...
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E quando estou distante; mais dispersos Os dias em que tento desvendar Segredos que permitam caminhar Por mais que os dias sejam tão perversos.
Alheia aos meus propósitos, Senhora Jamais vos perceberdes quão me engano No encanto que é deveras soberano E a cada novo verso mais aflora.
Pudesse ter nas mãos a direção E o Norte aonde possa ter a paz, Somente esta Fortuna satisfaz Mostrando os belos tempos que virão.
Dos sonhos entranhando rito e prece “Porém, temendo Amor que aviso desse”.
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“Porém, temendo Amor que aviso desse” Navego entre procelas mar adentro E quando nos quereres me concentro Ausente de meus olhos rara messe.
Do Fado, ao perceber soberania, Não sendo vosso ainda me pergunto Se aonde merecia estar bem junto De quem domina o passo e sempre guia
Trazendo nos meus olhos a esperança Chegando aos vossos dias e podendo, Viver momento mágico, estupendo, Aonde o coração voraz se lança.
Não trago do temor qualquer destroço E tendo-vos amado mais que posso.
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E tendo-vos amado mais que posso Não vejo solução senão vos ter Além de qualquer sonho de prazer, Vontade incontrolável; quero e endosso
Não pude navegar contra a corrente, E encontro em vós a praia em que ora aporto, Temor da solidão agora é morto, E sinto-me deveras mais contente.
Vencendo os dissabores chego a vós Fortuna desejada e tão querida, Do Amor que me domina a sorte urdida Ouvindo finalmente a minha voz.
E assi ao me tomar o pensamento “minha escritura a algum juízo isento.”
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“minha escritura a algum juízo isento.” Não pode se conter; então vos digo Que em vossos braços vejo o meu abrigo, Distante dos carinhos me atormento.
Seguir-vos pareado vida afora, Não posso me furtar a tal desejo E um dia mais feliz ora prevejo, Que a bela fantasia me decora.
E sendo de vós, mesmo qual lacaio Esquivo-me das dores que de antanho Viviam nestas águas em que banho O sonho, pelo qual em vós me espraio.
E quando dos meus sonhos vivo além Verdades incontidas sobrevêm.
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Verdades incontidas sobrevêm Na audácia em que caminho pela vida, De quem tanto desejo não duvida Uma alma que se entregue e sabe bem
Dos vários descaminhos percorridos Nas ânsias de um Amor que tanto estime, Um fato prazeroso e sei sublime, Destroçando as angústias dos olvidos.
Ascendo aos mais perfeitos caminhares, E vendo em vossos olhos os meus olhos, Supero quaisquer urzes, sem abrolhos, Percebo quão soberbos os pomares
Sabendo quando outrora o sofrimento. “escureceu-me o engenho co tormento.”
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“escureceu-me o engenho co tormento” O Amor quando se ausente percebi Estando em vossos braços, mas aqui Deveras tão somente sofrimento.
Na ausência dos carinhos vos perdendo, Alheio aos dias claros de verão, Não vendo nem tampouco direção, O sonho não produz mais dividendo.
Em vosso caminhar, Senhora amada, O tempo desafia tantos Fados, Não suportando mais velhos enfados A sorte sem vos ter; queda adernada
E quando a noite escura sobrevém Andando da esperança mui aquém.
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Andando da esperança mui aquém. Percorro sendas várias sem abrigo, Sabendo ser cruel, venal castigo, Apenas o vazio me contém.
Amor com suas hastes; amparara Os passos deste vago sonhador, E agora sem caminho a se propor A noite com certeza, nunca é clara.
Fortuna renegando alguma luz A quem se fez em vós amante e escravo Vencendo um oceano imenso e bravo Ás ânsias mais vorazes me conduz
Amor com sábias mãos futuro tece “para que seus enganos não dissesse.”
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“para que seus enganos não dissesse” O Fado muitas vezes se disfarça Vontade se tornando então esparsa, Louvando em vossos olhos, rara prece.
Mudasse a direção dos ventos quando Em vossas mãos pudesse deslindar Maravilhosa sorte de encontrar Um mundo bem tranqüilo, suave e brando.
Quisera em vossos dias me perder, Amor não poderia ter outrora Caminho mais seguro que d’agora Seguindo a bela trilha do prazer.
E tendo mais Amor do que inda posso Percebo quão constante ando assim, vosso.
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Percebo quão constante ando assim, vosso Alvissareiros dias entranhados Diversos dos terrores já passados, Fortuna em bela senda agora endosso.
Vivenciando em mares mais bravios Anseios de momento solitários, Os dias se tornando temerários, Invés de calmaria, desafios.
E os olhos no porvir, quem poderia Traçar se não volvesse a ter em si O quanto deste encanto já perdi, Em vós ao renovar-se a fantasia
Fazendo em vosso encanto brados, pleitos “Ó vós que Amor obriga a ser sujeitos!”
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“Ó vós que Amor obriga a ser sujeitos!” Momentos discordantes e venais, E enquanto em meu caminho derramais Desejo, o satisfaço em vossos leitos.
Na angústia em que professo a solidão, Discórdias entre medos e terrores, Assim ao se encontrar os dissabores Decerto novos dias mostrarão
O rumo em que vos tendo como guia Pudesse transformar a caminhada, E tanto se percebe em rara estrada Além do que talvez uma utopia
E tendo-vos deveras com louvor Encanta-me o saber do Vosso Amor
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Encanta-me o saber do Vosso Amor E ter esta Ventura em farto brilho, No encanto em ser tão vosso maravilho, Divino caminhar em esplendor.
Os Fados me guiando aos vossos passos, E neles antevejo o meu futuro, Outrora um mundo amargo, frio e escuro, Agora não restando mais nem traços.
Em ser-vos mais fiel, suprema glória, Viver com a alegria de quem sonha, Por mais que a vida mostre-se medonha Saber já desvendar rara vitória
Submeto-me somente por quererdes “a diversas vontades quando lerdes”.
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“a diversas vontades quando lerdes” O quão se fez Amor mais necessário, Ainda sendo o mundo temerário Caminhos quando em vós, os creio verdes.
Na senda sempre flórea que ora vejo, Além da mais perfeita imensidão, Meus olhos com certeza seguirão As trilhas que em vós dizem do desejo.
Senhora de Minh’alma ama e dona, O Fado nos trazendo em par constante Momento que é deveras deslumbrante Do pensamento então ele se adona.
Convosco desconheço os vãos tormentos Vencendo os mais diversos sofrimentos.
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Vencendo os mais diversos sofrimentos Não tenho tais temores que noutra era Ao impedir florada e primavera Trouxeram tão somente desalentos.
Supero os maus momentos com sorrisos, E tendo os dias claros vejo o sol Qual fora um helianto, um girassol, Em ritos mais sobejos e concisos.
A vida se mostrando em pleno Amor, Não deixa que se pense noutras cores, E quando se espalhando em nós as flores Eu vejo a nossa história recompor.
E traço com carinho e tantos versos “num breve livro casos tão diversos.”
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“num breve livro casos tão diversos” Perfaço com Amor em alma pura, E quando a noite fosse mais escura Marcada por caminhos vãos, perversos
Em vós eu poderia desvendar A clara maravilha deste Fado, Há tanto pelos sonhos, alentado, Trazendo cada raio de um luar
Alvissareiros dias, mar tranqüilo, E nele uma certeza em que se fez Ao expressar Fortuna e lucidez, Uma esperança além, ora desfilo
E sinto então, sobejos sentimentos Adentrando-me então meus pensamentos.
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Adentrando-me então meus pensamentos Os brilhos fartos todos de um Amor Dos passos e dos sonhos, o Senhor, Apascento assim tantos tormentos.
Eu ao ver-vos dama amada em luz suave Percebo quão divina a maravilha Na qual uma esperança agora trilha Fazendo deste encanto sua nave.
Atrevo-me a pensar em novos dias E neles outras sendas mais floridas Unindo então deveras nossas vidas, Negando ao caminheiro noites frias.
Eu sei que com certeza meus direitos “verdades puras são, e não defeitos...”
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“verdades puras são, e não defeitos”, Sobejas qualidades e as procuro, Por tanto seja o dia mais escuro, Das luzes, vossos olhos sendo feitos
Espelham claridades tão diversas Matizes que florescem primaveras Sabendo desde antanho em priscas eras Jamais as nossas noites são dispersas.
E tendo-vos Senhora é como outrora Pudesse crer na fonte que irradia Traçando em vossos passos fantasia, Na qual toda a verdade se decora.
E quando me entregando ao vosso amor Saber-vos com carinho é qual louvor.
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Saber-vos com carinho é qual louvor E dele me espraiando em vossos braços Estreitam-se deveras firmes laços Traçando cada passo com fervor.
Senhora tanto amor quanto vos tenho, Jamais se conhecera alguém, portanto À nossa fantasia então vos canto E nisto, com denodo, meu empenho.
Seguir-vos qual falena segue a luz, E ter-vos ao meu lado, Fado e sina, No brilho deste olhar que me fascina, Certeza de um Amor que me condiz
Em vós tanta beleza quando crerdes “E sabei que, segundo o amor , tiverdes”
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“E sabei que, segundo o amor , tiverdes” Momentos tão felizes e sobejos, Florindo em nossos passos os desejos, Seara feita em campos todos verdes.
Augustas emoções em vós; percebo E delas teço um tempo mais feliz, No Amor o coração de um aprendiz Perfaz esta paisagem que concebo.
Usando da palavra posso crer Num tempo alvissareiro em luzes feito, E quando deste encanto sei o pleito, Deveras reconheço o meu prazer
E tendo-vos no dia que desponte Das águas cristalinas, pura fonte
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Das águas cristalinas, pura fonte Espalham alegrias pelos mares E quando em vossos olhos meus altares Um raro sol percebo no horizonte.
Fortuna desejando que eu tivesse Certeza de um momento feito em paz, Amor quando do Amor se faz capaz Trazendo ao navegante rara messe.
Escuto a voz do vento a me clamar Traçando com ternura a maravilha Que agora o coração deveras trilha Chegando aos claros reinos do luar
E assim ao perceber-vos universos “tereis o entendimento de meus versos!”
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“tereis o entendimento de meus versos” Ao conceber em vós tanta beleza, O quanto se vencendo a correnteza Encontram-se caminhos mais diversos.
E tendo sob os olhos rara luz Enfrento as tempestades mais venais, E quando em vossas mãos já me afagais Imagem tão sublime reproduz
Da fonte aos grandes rios, belos prados, Marginam redentores emoções E nelas maravilhas, seduções, Deixando os dias claros, bem traçados
E assim após saber da rara fonte O Amor que nos conforta, a foz aponte...
MARCOS LOURES
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