
ESPIRAL DE SONETOS - VANDALISMO HOMENAGEANDO AUGUSTO DOS ANJOS
Data 15/03/2010 12:32:05 | Tópico: Poemas
| Vandalismo
Meu coração tem catedrais imensas, Templos de priscas e longínquas datas, Onde um nume de amor, em serenatas, Canta a aleluia virginal das crenças.
Na ogiva fúlgida e nas colunatas Vertem lustrais irradiações intensas Cintilações de lâmpadas suspensas E as ametistas e os florões e as pratas.
Como os velhos Templários medievais Entrei um dia nessas catedrais E nesses templos claros e risonhos ...
E erguendo os gládios e brandindo as hastas, No desespero dos iconoclastas Quebrei a imagem dos meus próprios sonhos!
Augusto dos Anjos
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“Quebrei a imagem dos meus próprios sonhos” Ao perceber inúteis as luzernas Adentrando terríveis vãos, cavernas Retratos de momentos tão medonhos.
Expondo à minha face tais paragens Cenário distorcido em vagas luzes, Arrebatando em mim diversas cruzes, Soturnas e temíveis paisagens.
Das ânsias cintilantes fluorescências E impávidas figuras caricatas Em meio às gargalhadas e bravatas Convites para os ermos das demências.
Afetam meu olhar e inebriantes, Fulguram quais bisonhos diamantes.
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Fulguram quais bisonhos diamantes. Olhares que me espreitam desta fera, A solidão enquanto destempera, Tranqüilizando ao menos por instantes.
Verdugos de nós mesmos, muita vez, Alheios ao que possa ressurgir, Ouvindo uma esperança além bramir, Em novo dia, ainda, mesmo crês.
Adentro nos mistérios de minha alma Masmorras, catedrais e ancoradouros, Diversos caminhares, ritos mouros Do quanto já vivera, medo e trauma
E quando me percebes arrebatas “Templos de priscas e longínquas datas.”
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“Templos de priscas e longínquas datas” Encontram no meu peito o esconderijo E quanto aos meus anseios me dirijo As dores se revoltam em cascatas.
E nesta turbulência mal convivo Com todos os espectros que se hospedam Caminhos usuais quebram, depredam, E assim em meio ao caos eu sobrevivo.
Mortalhas entre pútridas carcaças Somente me rondando pesadelos, A cada nova noite revivê-los Enquanto ao largo sei que ainda passas
E mesmo se presente; não me internas Ao perceber inúteis as luzernas
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Ao perceber inúteis as luzernas Estranho quando a luz em lusco fusco Entranha muito além do que ora busco, Traçando procissões raras, supernas.
Heréticos demônios coexistem Com anjos muitas vezes mais profanos, E os erros cometidos, meus enganos, Ainda mesmo após, vivem, persistem.
Esboço reações, mas não prossigo Etéreas maravilhas e abissais, Nefastas hedonistas magistrais, Ambígua sensação de caos e abrigo.
Insólito momento; desbaratas “Onde um nume de amor, em serenatas.”
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“Onde um nume de amor, em serenatas.” Ouvia-se deveras percebi Esdrúxulos caminhos vêm a ti Presenças tantas vezes mais ingratas.
Ascendo aos mais diversos elementos, Na fúria deste vento, águas profundas Incêndios invadindo quando inundas Gerando paz em forma de tormentos.
Antíteses comuns de um sonho tosco, A par destes incríveis contra-sensos Os medos e os prazeres são imensos, Luar mesmo que pleno, segue fosco;
E quando necessárias noites ternas Adentrando terríveis vãos, cavernas
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Adentrando terríveis vãos, cavernas Não pude perceber saídas, fugas E quando ao enfrentar também refugas Diverso da loucura que ora externas,
Incríveis vendavais, tormentas várias, Estúpidas quimeras ancestrais E nelas os diversos rituais Mostrando faces torpes, temerárias.
Assiduamente entranham suas garras E deixam cicatrizes tatuadas Nas almas que circundam, destroçadas, Enquanto as minhas pernas tu agarras
E incrível carpideira em vozes tensas “Canta a aleluia virginal das crenças”.
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“Canta a aleluia virginal das crenças” Espantosa quimera incendiando Num panorama outrora bem mais brando Gerando mais terríveis desavenças.
Assassinos, ladrões, répteis humanos Arrastam-se entre fogos e demônios, Explode emanação de seus hormônios Alastram-se terrores, desenganos.
Fomentam temporais em vento forte, Um bêbado funâmbulo caminha E podre sensação que se avizinha Prenunciando assim tortura e morte
No meio dos espectros mais bisonhos Retratos de momentos tão medonhos.
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Retratos de momentos tão medonhos. Asquerosas figuras, gargalhares, Na cúpida ilusão, podres altares, Arfantes emoções, terríveis sonhos.
E em meio às trevas surge esta satânica Beleza que seduz e tentadora, Dos males e dos gozos, genitora, Em convulsão feroz, quase tetânica.
Esbarram-me cadáveres do anseio Negado há tanto tempo, desde a infância, Caminham com soberba e elegância Não tendo dos espectros mais receio.
E o Demo fabuloso em tais bravatas “Na ogiva fúlgida e nas colunatas”.
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“Na ogiva fúlgida e nas colunatas”. Nefastos, gigantescos corvos vêm Num crocitar constante, como alguém Que risse destas cenas insensatas.
Vergastas soltas cortam todo este ar E algozes em masmorras, cadafalsos, Os pés em carne viva estão descalços Ao longe sobre as trevas o luar
Num lusco fusco entranha este cenário, Insanos os espectros de minha alma, Que incrivelmente sinto bem mais calma, Além do que pensara necessário
Especulares ritos quais miragens Expondo à minha face tais paragens.
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Expondo à minha face tais paragens Uma fantasmagórica impressão Demarca a minha pele em abrasão Fomenta o desespero; falsos pajens
Adentram o salão aonde a festa Explode em cores fátuas e vulgares, Diversas meretrizes, lupanares Resultam tentações árduas, funestas.
Eclodem de crisálidas gigantes Falenas que medonhas bebem luzes, Os crânios entre adagas, ferros, cruzes Em tons bem mais profícuos, radiantes
E sobre estas cabeças, vãs e imensas “Vertem lustrais irradiações intensas”.
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“Vertem lustrais irradiações intensas” E entranha nos meus olhos tal fascínio Perdendo das vontades, o domínio As horas em tempestas, festas, tensas...
Estrídulos distantes, chibatadas Açoites entre carnes laceradas, Dos restos do que fui sequer pegadas, Jamais imaginara as alvoradas.
Brumosa madrugada em pesadelos, A turba, imunda súcia, velhos párias Deitando sob as várias luminárias, Assim posso melhor, decerto, vê-los
E emaranhando ao longe ledas cruzes Cenário distorcido em vagas, luzes...
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Cenário distorcido em vagas luzes Novelos de cadáveres, zumbis, E incrível que pareça estou feliz, Bebendo cada fonte em que reluzes
Apátridas bastardos, desdentados Profanas criaturas fartos risos, Sensações de infernos, Paraísos, Demônios com arcanjos misturados.
E o gozo prazeroso da tortura Esvai em sangue intenso sacrifício, E como fosse outrora o Santo Ofício, Percebo que o terror ajuda e cura.
Disformes fantasias em que pensas: “Cintilações de lâmpadas suspensas”
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“Cintilações de lâmpadas suspensas” Espalham-se nos antros mais imundos, E os olhos demoníacos, profundos, Sanguíneas emoções são recompensas.
Hedônicos fantoches histriônicos Gerando abortos fetos e embriões, E nesta orgia, louca, tu te expões, Em danças, atos bruscos desarmônicos.
Fétida e sulfurosa madrugada, As ânsias estampadas neste rosto, Melífero terror amansa o gosto Da imagem ora pútrida e encarnada
E como fossem pedras, foices, urzes Arrebatando em mim diversas cruzes.
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Arrebatando em mim diversas cruzes Esdrúxulos demônios me rondando, E o mundo num instante desabando Terrível profusão de grises luzes.
Vertiginosa imagem quando eu abro Os olhos tudo gira, corpo e mente, Qual fosse um festival torpe e demente Num ar empesteado em tom macabro
Fulgura entre os espectros áureo brilho Argênteas, brônzeas flores, rubros olhos, Pisando sobre brasas, sobre abrolhos Vagando sem destino, teimo e trilho
Incêndios devorando céus e matas “E as ametistas e os florões e as pratas.”..
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“E as ametistas e os florões e as pratas” Entranham ardentias, fogaréus, Satânicas imagens douram céus, A lava se derrama em vis cascatas
Vulcânicos eflúvios em clarões Expondo esta volúpia incontrolável, Delírio se tornando inevitável Enquanto tuas carnes; decompões.
E gêiseres explodem vêm à tona, Histriônicos ritos, corpo nu, Gargalha-se deveras Belzebu, Uma esperança tola me abandona
Na vívida impressão, várias imagens Soturnas e temíveis paisagens.
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Soturnas e temíveis paisagens Tornando este cenário deslumbrante Envolto pelos brados lancinantes Confusas e diversas as mensagens
Entranho cada vez mais pela furna Figuras demoníacas, dantescas, Catedrais gigantes, nababescas Numa ânsia tresloucada em tez noturna
Adentram num instante em seus corcéis Grotescos cavaleiros esqueléticos, Com seus esgares lúgubres e herméticos Girando nestes toscos carrosséis
Montando em seus soberbos animais “Como os velhos Templários medievais.”
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“Como os velhos Templários medievais.” Estranhas criaturas uniformes, Nas fácies caricatas e disformes, Perfazem seus diversos rituais
Brumosa madrugada em tons sombrios, Espectros em hedônicas orgias, E tu entre os cadáveres sorrias Deitando sem pudor, lúbricos cios
Em holocausto vejo uma criança As garras dos demônios no seu rosto, O solo putrefato, decomposto Uma ninfa desnuda ao longe, dança
Voluptuosa luz nas excrescências Das ânsias cintilantes fluorescências
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Das ânsias cintilantes fluorescências Eclodem quais falenas constelares, Misturam aos sanguíneos lupanares Corpos desnudados, penitências.
Clamor de vozes dúbias e insensatas Demônios, querubins, anjos mordazes, E em meio a tal loucura inda trazes Nas mãos terríveis fogos e chibatas
Explodem vez em quando os artifícios Em multicores tantas, maviosas, Azulejando o solo, várias rosas Dos céus entre os infernos, precipícios
Lembrar que há tempos entre vendavais “Entrei um dia nessas catedrais”.
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“Entrei um dia nessas catedrais” Aonde se expressando cadavéricas Imagens quase lúbricas e histéricas Toando sons edênicos, venais.
Assisto ao vandalismo que em meus mitos Transforma com diverso tom, matizes Sombrias entre as luzes que desdizes, Sonoras emoções, diversos gritos.
Adagas e chicotes, orações, Mesquinhas ilusões, medos diversos, E quando transfiguro para os versos, Demonstras com sarcasmo outras versões
Descendo entre satânicas cascatas E impávidas figuras caricatas.
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E impávidas figuras caricatas Dançando nesta imensa catedral Gemido sem sentido gutural Partícipe das loucas serenatas.
Esgueiro-me entre corpos lacerados, Bebendo desta insânia me transmudo, E quando me percebo quase mudo Também entranho em ritos tresloucados.
Medonhos magos, loucos ancestrais, Alquímicos cadinhos, carpideiras, Tremulam entre tantos as bandeiras Momentos de terror são magistrais
Adentro por confusos, ledos sonhos “E nesses templos claros e risonhos ...”
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“E nesses templos claros e risonhos Demoníaca figura angelical, Misturam-se deveras, bem e mal, Ao mesmo tempo belos e medonhos.
Esqueço-me de tudo que aprendi, Visão de um Paraíso deturpado Inferno, limbo, céu quase nublando, E neste pandemônio estás aqui.
As roupas já puídas pelo tempo, A carne decomposta, olhos sombrios, E enfrento meus temores, desafios, A cada passo, medo ou contratempo
E ris enquanto o senso desacatas Em meio às gargalhadas e bravatas.
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Em meio às gargalhadas e bravatas Encontro minha face estropiada, Refletindo esta espúria madrugada Marcada por açoites e chibatas.
Satânicas imagens pululando Açoites entre fúrias e risadas, As costas já sanguíneas, laceradas, Abutres me rondando em tosco bando.
Em meio às preces, velas e serpentes, Vagando sem destino pelas sendas, Qual fossem multidões de ritos, lendas, Hedônicas lascivas e dementes
Satã com seu comboio; traz vergastas “E erguendo os gládios e brandindo as hastas.”
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“E erguendo os gládios e brandindo as hastas” Em vândalos e párias transformados, Momentos tão brumosos e nublados Vagando pelos ares, tu te afastas
E trançam sobre nós alados seres Diversas garatujas, gargalhares, Altares entre fogos, lupanares, Mostrando os seus anseios e poderes.
Bisonhas caricatas, demoníacas, Deidades desfilando uma nudez E quando sobre a cena tu me vês Imagens tão sutis e afrodisíacas
Assim entre terríveis penitências Convites para os ermos das demências.
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Convites para os ermos das demências Fatídicos tormentos entranhados, Revivem mitos mortos, vãos passados, Esgotam os limites das decências.
Ecléticos fulgores luz fugaz Caleidoscópios vários em mosaico, Hermética volúpia em ar arcaico E nisto tu te ris, te satisfaz
Energúmenos seres, débeis faces Escravizando cortes em taperas, Aonde imaginasse primaveras Com nuvens invernais, tu logo embaces
Quebrando imagens toscas com vergastas “No desespero dos iconoclastas.”
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“No desespero dos iconoclastas” Cultuam-se imagéticas figuras, Em meio às claras luzes, vãs e escuras Satânicos arcanjos, cruas pastas.
Decomposição mostra destroços Carcaças eclodindo das masmorras Por mais ainda tentes e socorras Só restam dos demônios, frios ossos.
Cadáver insepulto ri-se irônico E cadafalsos vejo entre estes tronos, Representando assim os abandonos Num ato genial, porquanto hedônico
Danças sensuais por instantes Afetam meu olhar e inebriantes.
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Afetam meu olhar e inebriantes Momentos entre fúrias e prazeres, Diversas profusões de vagos seres, Enquanto em tal cenário te agigantes.
Mesquinhas e rasteiras serpes vêm E lambem minhas pernas, mordiscando, Aos poucos cada parte devorando Depois de certo tempo, mais alguém
Explode em gargalhadas, dança nua Orgásticos demônios, anjos nus E em meio ao festival, vejo urubus Vagando sobre nós, tampando a lua
Reconhecendo em ares tão medonhos “Quebrei a imagem dos meus próprios sonhos!”
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“Quebrei a imagem dos meus próprios sonhos” Qual fosse algum espelho que mostrasse A verdadeira e imunda, turva face Num misto de terrores enfadonhos
Astutos querubins, seres satânicos Vestindo uma alva e rota maravilha Enquanto ao longe imagem tosca brilha Disseminando risos entre pânicos
E neste vandalismo entre promessas Divinas emoções num temor farto, Falenas adentrando então meu quarto Nos sonhos, pesadelos recomeças
Estrelas invadindo deslumbrantes Fulguram quais bisonhos diamantes.
MARCOS LOURES
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