BALADA DA TERRA

Data 15/03/2010 07:03:44 | Tópico: Poemas

p/o poeta arfemo


"Mas nunca provei dos frutos das minhas mãos..."

De uma canção de Luís Gonzaga Jr. ou Gonzaguinha

"Malditas sejam
todas as cercas!
Malditas todas as
propriedades privadas
que nos privam
de viver e amar!"

Do poema Terra Nossa, Liberdade,
de Dom Pedro Casaldáliga,
bispo emérito de são félix do araguaia,
que trocou o palácio episcopal por uma choupana.
catalão, veio ao brasil, como missionário claretiano e foi sagrado bispo contra a sua vontade. enviou para a mãe o anel episcopal e o substituiu por uma aliança de casca de coco - símbolo da opção preferencial pelos pobres. foi várias vezes advertido pela santa sé, por seus escritos e posição política. foi várias vezes também ameaçado de expulsão do brasil na época da ditadura. vive entre posseiros e índios até hoje, numa região de conflitos.



a terra irmão
pertence aos que nela trabalham
de sol a sol semeando o pão
que na mesa lhes falta muitas vezes
e é atirado ao lixo pelos burgueses
porco e gordo o burguês canalha
sempre dono e senhor amém

a terra por justiça deveria ser
de joão e de maria
de josé e de rosário
e de dolores
(tantas dores)
e dos filhos que fizeram
que andam descalços pelos campos sem escola
sem futuro sem nada
a terra não deveria ser
do mocinho bonito filho do senhor
o mocinho bonito que usa e abusa
da triste mocinha do campo
e depois a põe fora
como se fosse o final de um cigarro

a terra pertence ao lavrador
mas a ele só lhe vão dar os sete palmos medidos
como escreveu joão cabral
como escreveu dom pedro casaldáliga
como escreveu miguel torga
como escreveram outros tantos
mas nunca lhes deram ouvidos
senão a prisão
e o rótulo de agitadores
e subversivos

a terra é muita
e pertence ao povo que a fecunda
que faz crescer a semente
em troca de dinheiros minguados
a terra é de quem pega na enxada
e vive em habitações precárias
mas não é bem assim como deveria de ser
: a terra pertence ao coronel miserável
que se vale do dinheiro e do poder

enfim camarada
que somos nós senão nada?
nada nos vale escrever
a terra só enterra o pobre
ao pobre só resta morrer
e morrer...e morrer...

_____________
júlio, 15-03-10



Este texto vem de Luso-Poemas
https://www.luso-poemas.net

Pode visualizá-lo seguindo este link:
https://www.luso-poemas.net/modules/news/article.php?storyid=123891