
PARTO À PROCURA DE MIM 1
Data 07/02/2010 17:30:20 | Tópico: Poemas -> Introspecção
| Parto À procura de não sei o quê... Talvez de mim!
Parto... Soubesse, pelo menos, onde estou...? Soubesse por onde ir, Para onde ir... Parto E não vou!
Parto com o vento e com o sol Na sela de um cavalo a fingir Armado de elmo e lança Como Quixote ou Pança À procura de Alcácer-Quibir!
Parto num cavalo alado A galope por esses caminhos fora Como se o meu domínio e eu Principiássemos No raiar da aurora!
Parto como um lunático À procura da distância Num fio de luz suspenso Na infância!
Junto das águas revoltadas paro. A grandiosidade do mar Absorve a minha sede Numa onda agigantada Pelo fascínio Dum trono de medusas... Sou o imperador mais que perfeito daquele império sem fronteiras À beira do meu declínio!
Ah! Felicidade doentia Em forma de água, ar, ou até desejo Em forma de luar, de mar Ou de beijo...! Como posso crer que é verdade Se fico?
Deixem-me partir! Deixem-me ir por esse mar que me tortura de miragens! Quero entender as soltas vagas Que derramam sobre mim o sal Duma insensível compreensão Enquanto Com voz grave e fria Me acusam:
- NÃO SABES QUEM ÉS!
Ah Mar! Mar azul! Apesar de tudo brando! Mar de luz! Da luz que me seduz E provoca o pranto! Ah mar distante! Mar navegante Que vens do outro lado do Oceano Como um deus ou uma consciência Percorres milhas e milhas de sabedoria Léguas e léguas de demência Apenas para me acusares:
- NÃO SABES QUEM ÉS!
O viril espelho da realidade Assedia-me... Tanto queria ser...!
A pedra que ninguém teme pisar... A lâmpada fundida que se joga fora... A flor murcha que decepam... O mendigo que nunca chora... A criança que nunca brinca... A covardia precisa... - Sei quem sou...!
Ah Mar! Dos confins do teu tempo sem limites Diz-me aos brados, aos berros Aos gritos: - SEI QUEM TU ÉS!
Então eu Inalando mágoa pelo olhar Fitaria os teus olhos transparentes Regressaria de onde nunca parti De braços e peito abertos Para me abraçar a mim!
António Casado 19 Julho 1978 Revisto para o Luso Poemas
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