
O drama da infância em 3 atos.
Data 02/02/2010 12:06:39 | Tópico: Poemas -> Sociais
| Parte I - As crianças e seus sonhos
O que morreu em mim? Será a paixão solitária, Será a beleza falsária, Será a terra imaginária, [das coisas que pra viver escondi?]
O que morreu em meu povo? Será a paixão juvenil, canto de ária, Será a sensação libertária, Será a ilusão passageira, [do sentimento que perseguia nas passeatas?]
O que morreu no meu mundo? Será a palavra que transforma, Será a lava que solidifica, Será a terra que alimenta (mata a fome), [da Verdade do Cristo, um sonhador, do amor?]
O que morreu na gente, não sei direito Todavia, na criança ainda não pereceu O sorriso, a inocência, o amor pueril Que um dia, em cada um de nós, esteve presente.
Porque morre a criança em botão? Se pensamos levar à vida adulta ao desfecho final Quando ela já se encontra abatida, desnutrida, Antes mesmo de nascer, com indefeso pássaro caçado. [Ah, tanta hipocrisia "as crianças são o futuro", se lhes roubamos este direito?]
II - Violência social: a criança, sua maior vítima
Porque entregar uma arma [inda que seja de brinquedo] a este inofensivo ser em formação [como se fora um pequeno soldado]
"destruir a nossa própria semente, o preço do pão alimento, na bala de fogo, que corre silente, a exterminar: campos, vales, templos, lares e mentes..."
Morre a criança, a flor em broto Murchou na seca do ódio Que a ganância traz e a ambição faz
Algumas morrem no ventre Outras no berço de fome Como anjos docemente a sonhar Com lagos, prados, fontes, a brincar
Há aquelas que morrem no chão, Agredidas, violentadas, fuziladas e apenas queriam amor, lar e pão Pela omissão do estado e das famílias
E, porque não admitir repulsa social Do cidadão comum ou policial exterminadores da infância armas em punho somadas à intolerância
Parte III - Sobreviver em meio ao caos, abandono.
O que as crianças é possível sonhar? [E, infelizmente lhes é negado?] É com o direito ao ensino, como aprendizado É com o direito a um lar, sem ser escravizada É com o direito a cidadania, sem ser subjugada
O que é lastimável é ver pelas ruas, Irresponsáveis reprodutores sugando suas crias Pelos sinais, vivendo da escravitude E "educando" na vicissitude [Negando a escola a seus filhos, um absurdo, e as autoridades assistem passivamente ao espetáculo diário nos sinais de trânsito.]
À noite, sujas, famintas e desamparadas se enrolam em cobertores de jornal ou papelão, embaixo das marquises e passarelas ou cansadas subindo as ladeiras do morro
O que lhes foi negado? Os sonhos, o crescimento, as oportunidades, O que lhes foi legado? Os três "D": doenças, desnutrição, drogas
E assim, seguem ao futuro indiferentes E ao olhar dos transeuntes Adianta chorar na nau dos desamparados? Que força buscar nos corpos enregelados?
O que nos diferencia do Haiti, África ou Índia? Se padecer da fome é também um "mal" universal Se de abalos do corpo, trêmulos na sua globalidade Insistem em sobreviver e resistir em tenra idade? [vivem como um amontoado de "lixo" urbano, vivo, desprezado, ignorado.]
E mal saem de um buraco, entram em outro Fundo como todas as suas desgraças, suspiram Num último adeus, só resta um consolo [alívio para muitos, infelizmente]. Alimentar a vasta gama de germes que abrigam. [na solidária manifestação do último sopro]. AjAraújo, o poeta humanista, reflete sobre o maior dos dramas sociais do planeta: o abandono e extermínio de nossas crianças, especialmente aquelas nascidas na miséria, esquecidas pelas ruas, escrito em novembro de 1975, revisitado em fevereiro de 2010.
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