
Saga do nordestino
Data 07/01/2010 14:43:06 | Tópico: Poemas -> Dedicatória
| Vê, oh gente, Oh, vê! Sol negro se escondeu e a natureza se revoltou
Vê o céu escuro Nuvens formando no sertão O vento a tudo arrastando Folhas, terra e meu barracão
Lavrador pega a enxada Vem prá casa descansar Pois, Maria está na janela Por tua volta a esperar
Acende palha, oh Maria Pro céu se acalmar, clarão Pra cair chuva mansinha E irrigar o pedaço de chão.
Vê, oh gente! Oh, vê! Raio, relâmpago, trovão Árvore caindo, medo, apreensão É a tromba de água no meu sertão
A chuva transforma riacho em ribeirão Gado morrendo, criança chorando, tensão É a cheia, oh meu Deus tende piedade da gente do meus sertão
Vê, oh gente! Oh vê! Quanta tristeza, A terra sangrou e a colheita Foi perdida com o arrastão
Lavrador deixa o arado Vai-se embora do sertão A família só com uma muda no corpo Pra cidade de pé no chão
Segue o rumo, retirante Sem destino e sem razão Pega os trastes e aguardente Pó, poeira, solidão
Vai em frente companheiro Esta estrada te conduz Deixa a morte no sertão Vem buscar a sorte no Braz
E, ao raiar o dia, uma canção João vai ceifar o trigo em grão Pra Maria fazer o pão O germe da vida brotando do chão...
AjAraújo, o poeta humanista, descreve a saga da gente do sertão, na lida do agreste para a cidade, na sina de uma vida retirante, homenagem a Cândido Portinari, na série Retirantes, escrito em 1983.
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