
O burburinho que acordou a aldeia
Data 06/01/2010 12:56:18 | Tópico: Textos -> Surrealistas
| <object width="560" height="340"><param name="movie" value="http://www.youtube.com/v/vJBqedIGkIQ& ... t;</param><param name="allowFullScreen" value="true"></param><param name="allowscriptaccess" value="always"></param><embed src="http://www.youtube.com/v/vJBqedIGkIQ& ... PT&fs=1&&autoplay=1" type="application/x-shockwave-flash" allowscriptaccess="always" allowfullscreen="true" width="560" height="340"></embed></object>
A aldeia acordou estremunhada pelo burburinho que parecia vir ali das bandas do quintal da tia Miquelina. O que seria, o que não seria, o que raio se passaria num lugar tão remoto onde nunca acontece nada? Perguntava-se de boca em boca a caminho do local, cada vez mais barulhento à medida que se encurtava a distancia do caminho. Chegados ao fundo das escadas e junto ao pequeno portão de ferro que resguardava a propriedade, juntava-se agora o povo em peso, decididos a desvendar o motivo que os fez acordar mais cedo e dar um pulo da cama, naquela manhã enevoada e aparentemente igual a todas as outras, não fosse aquele rebuliço infernal. Alguns traziam paus compridos, outros traziam pedras, outros sacholas e havia ainda quem tivesse trazido roçadoiras, não fosse o diabo tece-las e terem que desbravar caminho na perseguição do demónio que lhes deu cabo do sossego habitual. O mais destemido abriu o portão mesmo sem licença da dona, que, curiosamente, ninguém tinha visto ainda e subiu o primeiro degrau, seguido pelos vizinhos em fila indiana, dispostos a tudo e sem medo do que quer que fosse que encontrassem ao cimo da escadaria, onde começava o quintal. E foi vê-los de olhos arregalados de espanto e de queixos caídos, impedindo-os de articular qualquer palavra, pelo que ali encontraram... Repolhos e alfaces com bocas que cantavam afinados num coro sem igual, cenouras nabos e rabanetes que se esgueiravam da terra e rodopiavam uns com os outros, numa espécie de bailado nupcial, flores que tocavam violino, lírios que sopravam em flautas, tomateiros e pimenteiros que assobiavam, abóboras e pepinos que tocavam em harpas até então inimagináveis, macieiras e nogueiras que batiam palmas com as suas folhas e uma ajudinha do vento, batateiras que sorriam e coelhos que se juntavam à festa com ar de convidados de honra, saltitando contentes num frenezim imparável pelo meio de todo aquele palco surreal e deixando os aldeões sem reacção nem sequer para se arredarem e deixarem passar a procissão da passarada que em menos de nada cruzou o céu e pousou em tudo o que era lado, soltando o seu canto magistral e ensurdecendo os ouvidos de todos, que, desta forma se viram obrigados a recuar sem poderem fazer mais nada. E a tia Miquelina, que além de ser dona do quintal também era mouca e por isso ninguém a viu, continuava a dormir como se nada fosse, alheia a todo aquele arraial matinal que acontecia ali, no seu quintal!... Este texto só aconteceu porque gostei do novo vídeo do Robbie Williams e fui escrevendo, escrevendo...
|
|