
É O MAR (REVISTO)
Data 29/12/2009 20:35:59 | Tópico: Poemas
| A foz de qualquer rio é a ternura
Um pequeno e breve aceno de mão Na proa dum barco à vela É Subtil delírio Mecha incendiada de maresia No consequente desejo Do fascínio
Ergue-se o perfume de um movimento Com o oxigénio evaporado Dum onda rebelde e aflita
Gota a gota A humidade derrama-se como lençol estendido Sobre o leito sedento Dos campos ressequidos Brota a vida nos troncos pungentes Que agora lançam ao vento Alegres canções e cânticos Destemidos
- É o mar!
Expressão ondulada dos veleiros encantados Encaminhados pelas Sereias de Neptuno Num canto cósmico e fatal Rude sensação das mãos calejadas Dos homens que procuram no sal O alimento Bandeira suspensa num mastro erecto Estrela Polar virada a sul Astrolábio de quantas matemáticas o sonho criou
- É o mar!
Rejubila minha alma ébria de maresia Embalada pela potência forte daqueles braços Naquele saber profundo Nos olhos que devastam a eternidade Num sonho de humildade e perdão
Ah Mar Que as tuas águas agitem consciências Como as velas das naus aconchegaram o vento Que o sódio seja um tratado de verdade e paz Na boca das lagoas Na garganta dos rios Que por cada partícula solta Dos teus átomos em perpétuo movimento Uma revolução de amor se evada do cloro Inunde de ideais os corpos acomodados Ao marasmo duma espera sem valores
Ah Mar Que o meu canto seja alcatraz ou gaivota No olhar inundado de comiseração e alegria Que o meu peito se enamore da espuma Pela eternidade de um mito Pela constância de um grito Que declame a sede de liberdade do poeta Numa orquestra de medusas Que trauteie harmoniosamente os acordes Da emancipação da ode Sobre um palco de pérolas e limos
Que todas as nuvens cruzem esta grandeza Numa romaria aflita e insistente Como um prolongamento da alma revolta Que a vida que sustentam na húmida areia Sejam prova lírica da sua oceânica existência
Ah mar Revolve o lodo da mesquinhez humana Falsas traições prescritas hipocrisias Nos redemoinhos do teu marear constante Que cada ser humano Cada olhar distante e profundo Cada gesto de tristeza ou fadiga Mergulhe na essência triunfal da tua ternura E descubra o fascinado mundo da razão
Desbrava as virgens ilhas dos sentimentos Como um navegador quinhentista Preparava o canhão e bania os medos De piratas e corcéis trajados Deportava-os em jangadas de distância e piranhas Comandadas por nevoeiros e loucura Para os confins do pavor!
Quebra o espelho convexo da pobreza!
Com a fúria das naufragadas espadas Que outrora buscavam fortuna e reconhecimento Manifesta a tua lúcida excelência Funde nos meus nervos exaltados Os teus iões revoltados
Que meu corpo se transforme No mais essencial elemento Da orgânica da tua beleza Para que possa ser tu!
Ah mar Nas assembleias dos homens Marulha nos sentidos a sabedoria Precisa Para que sonhem uma ilha de paz No doce crepúsculo do amor Num dia existido Para lá das consciências!
António Casado Inserido mo projecto Escrito Ao Luar 21 Agosto 2009
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