
CARTAS DE MALQUERER 1
Data 22/12/2009 19:54:44 | Tópico: Mensagens -> Desilusão
| Sei que já te disse adeus tantas vezes e outras tantas me despedi ao ver-te partir como os que partem e deixam uma pétala da rosa da roseira das saudades espalhada sobre a colcha da fria cama. Sei que tantas vezes suspirei que não viesses apelando a uma clemência inexistente no livro das crenças apenas para não sentir a dor de te ver partir e ficar a sós comigo sobre o lençol molhado do suor de nós. Sempre que o telefone tocava e a tua voz me surpreendia tão meiga e quente como o verão mais ardente do vulcão do nosso querer o meu coração saltava de contente e eu que tanto desejara a tua partida ansiava agora como um louco a tua chegada. A janela já não tinha postigos para abrir de tanta ansiedade nem a porta ombreira onde bater. Escancarava a casa como quem rompe o biombo das nuvens com as mãos e deixa uma nesga de sol invadir a sensualidade de uma mistura de tudo o que se desenvolve em nós e faz almejar por algo surpreendente que nos faria perder no cubículo florido da paixão. Breves minutos – porque a nossa história é feita de fugazes minutos – como as páginas brancas de um meticuloso jasmim ainda não inventado narram a aventura daquele apólogo que ainda não foi escrito e acredito tenha fim. O princípio é sempre o retorno do filho pródigo como ave de arribação às labaredas incandescentes dos meus braços ao braseiro incendiado dos meus beijos à fogueira em combustão da minha carne à lareira do nosso leito. Breves momentos antes da partida sentava-me sobre os ponteiros do relógio a contar os séculos – aqueles que passarão sem que te veja – tentava num fôlego atrasá-lo ficando com a estranha noção de que apenas adiava a tua permanência e o tempo que sobrava era a solidão. Digo adeus e prometo amar-te desprendido e solto como um animal feroz que caminha pela selva numa atitude pretensiosa de querer ter a manha do leopardo a agilidade da gazela a beleza da zebra e a pujança do leão apenas para que em mim sintas a tua casa e o sol bafeje de astros o olhar. Digo adeus porque não aprendi a dizer mais nada enquanto espero no anfiteatro do sono pela vontade de querer que fiques e que nunca mais partas. Digo adeus para que possa manifestar a enorme alegria do regresso. Se a lua ousar defrontar-me com os seus divinos braços de seda e o vento ao bulir ultrajar de sopros o jardim da felicidade entregarei o peito à noite como um guerrilheiro medieval enfrentarei os insectos com a precisão dos pássaros armado com a lança de um raio de sol e o escudo das ondas. Como um garimpeiro percorrerei o arco-íris até encontrar o pote de ouro da harmonia como o epicentro de todas as pontes que atravessam de sorrisos os rios agitados das consciências voláteis como anseios. No alforge de prata a insígnia de um abraço abrirá alas pelo universo e instalar-se-á numa artéria qualquer onde o sangue é o mensageiro de um telegrama que fala apenas de nós. Conselhos apanho-os na erva que nasce pelos campos com o alecrim quando as árvores abrem alas e o caudal de um regato de cetim leva na enxurrada as muitas compreensões blasfemadas que predizem que te amo como a seiva se derrama pelo caule das flores e nunca mais voltarás ao terraço do meu furioso e insatisfeito querer. Um estático sorriso profetisa uma sementeira de dores e nomes onde o teu consta mesclado de essências tão rudes como o enxofre. Acredito somente no karma planetário que me revela na bola de cristal da sabedoria dos tempos que o teu regresso é apenas a consequência das flores que disponho sobre a mesa-de-cabeceira e que o teu desejo de ficar é a causa natural de um bem-estar que a fusão dos desejos proporciona porque tens um nome e é o único que a minha garganta sedenta e aflita reproduz como uma ladainha. Amanhã é possível que as vozes do globo se unam para me dizerem que estás aqui porque sei sempre que estás comigo assim como sei que estou contigo e acredito que sempre estarás… só não sei onde estás.
antóniocasado Inserido no projecto "Escrito ao Luar" 6 Abril 2009
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