
quando ergo a espada quebra-se a mão
Data 18/12/2009 09:52:51 | Tópico: Poemas -> Sociais
| Quando ergo a espada quebra-se a mão!
Uma intensa chuva de pedras Bombardeia dos céus sem piedade A marcha triunfal dos derrotados! A morte invade as ruas e clama desordem…
Quando levanto a voz fico afónico!
A lava em cinzas arrasa montanhas! O odor nauseabundo dos cadáveres é um vale! A lepra passeia-se de gravata pelas cidades…
Num céu sem cor Num lago sem água Manifestam-se os caminhos que não percorri… Em cada parede pincelada de grafiteis Leio o nome de um pássaro sem asas Que aspira alçar voo numa esquina…
Todo o dia é um lençol de retalhos! Os desejos aludem ao passado Que se enrola à volta do pescoço Como forca! O saber que se sabe é já perjúrio!
Amotinam-se as pedras das casas derrubadas! A multidão vive numa imensa agonia… Se falam da esperança é porque não existe! As palavras são balas de pistola Disparadas contra a consciência Da incredulidade!
Abrem-se as comportas da raiva! Caminham sombras pelo desatino de ruas de lama Pedras soltas e Lixo! Todo o horizonte distorcido e nublado é um sol! Os penachos incentivam às pequenas caridadezinhas…! A fúria e o ódio andam de mãos dadas pelos jardins Escrevem o mote de agoniados sonetos estéreis Coleccionam sentimentos vazios de sentir! A luz recalca a sombra dum abutre no alto da escarpa Geme o faminto estômago que procura a presa Com que saciará a míngua de viver! Se por ventura um cadáver lança um apelo Exigindo o fim duma existência moribunda e satânica Logo o lume saído da boca do dragão Lhe arranca o coração ou o que resta dele Atracado à necessidade irrepreensível de ser engrenagem!
Não há morte que resista a tanto abstracto! A fisionomia turva dos sobreviventes Acalenta no ócio incrustado nos ossos Miragens de paraísos suspensos entre as horas…! Nada fazem Para além de perturbarem a paz das sombras Projectadas na calçada carente de áureas e de vida! Não deixam de ser sombras Inertes e esquálidas À espera que a misericórdia do pássaro vadio Lhes venha sugar a réstia de oxigénio Que ainda se debate nos alvéolos!
Pelos jardins O futuro murcha nas folhas da velha árvore da sabedoria Recolhe da seiva o veneno com que alimenta A esterilidade profunda e inglória! Apenas os vampiros se banqueteiam numa ceia de sangue e almas Fundida a laser no abandono do desespero!
As crianças já não dormem… As crianças já não dormem Decepadas as veias Mordem as pedras e nunca choram – O futuro é o pesadelo dum sono acordado! Já urge a noite… Já falta a lua… O sorriso também existe dentro das artérias cerradas… A verdade é uma gazua Sem madeira para furar!
Um sino interroga pelos ventos A lucidez que resta: “Agora que as dores descobrem a felicidade é que as contestam? Agora que os crucifixos se enfeitam é que os odeiam? Agora que os espinhos se envaidecem é que os condenam? Deixai a vigília dos punhais rondar as casas Porque elas são feitas de culpas e horrores Nada têm que ver com quem nelas habita… Quem as domicilia não são pessoas São nacos de qualquer coisa e violência Pois dentro de tudo o que não serão Talvez encontrem uma migalha de vazio No espaço que nunca foi preenchido por nada! Deixai a glória varrer ruas e avenidas Ela não é mais que a manifestação da inexistência Propósito alquímico para se subir ao pedestal do status Tão grandioso quanto imprestável Só para deleite do olhar daqueles que nada esperam Só para deleite do vício estático e desocupado De aguardar que o nevoeiro se transforme em Midas! Deixai o mundo correr como pode! É mais fácil esculpir a morte nos rostos das cabras Que descobrir uma agulha de sensatez nas palavras dos Homens! É mais fácil encontrar um ícone de aço esculpido num bar Que desvendar a verdade no puzzle irracional das atitudes dos Homens! Dizei-me para que quereis decifrar tais enigmas?!
Enquanto rasgo o poema a terra abre as pernas Pare o perpétuo filho do apocalipse da razão. As sementes já clamam por justiça No alvorecer nos braços da civilização… Se os passos dados foram Arcos do Triunfo Foi porque uma luz os iluminou. Por dentro da desgraça O sol insiste em incendiar Os corações de pujança e alegria… Para que quereis decifrar tais enigmas?
“Para que quereis decifrar tais enigmas? A rudez dos instintos manifesta-se na rudez das atitudes Quando sepultais mistérios e segredos acumulados A tantas algemas luz do dia de hoje! As planícies tornam-se vales imensos Onde ainda o orgulho constrói labirintos e escava túneis Crente numa continuidade lamacenta e repetitiva Daquilo que foi sem mudança e que será! É aquilo que é. Nem bom nem mau… Apenas frívolo! Aconchego das terríveis justificações que vos acobardam Turbilhão de precárias indecisões e Insensatez! Agora que os lamentos se elevam como éter acima da lua - Porque ainda representam um livro aberto Quando todas as dúvidas renovam de gritos as consciências – A rouquidão fervilha na aspereza de um aflito! O ácido dos maus instintos recobra de tanta insanidade… Porque não sois felizes? Tudo o que aspirastes por mundo é o que tendes! Tudo o que construístes é o que está construído! Tudo o que invejastes é o que possuís! Será que o mar subirá alguma vez a montanha? Pois que chegue a vós em forma de esqueleto O cheiro alucinante desse sonho nómada Que erra pelo mundo à procura de um ser Onde possa ganhar forma Desvendar os mistérios inexplicáveis Das razões concretas que nunca o foram!”
Quando bater à porta do futuro Vestido de ideais e sorrisos Enfeitado de plumas e segredos de cristal Todos os compêndios escondidos dos brilhantes olhos Farão esvoaçar as páginas pelo deserto dos inconformados Os poetas definirão com precisão as miragens Numa ode extensa lírica e real O globo terá a dimensão universal duma solução… Desvendar-se-ão os grandes mistérios da poesia!
Breve… Breve chegará o dia!
António Casado 14 Setembro 2007 englobado no projecto "ESCRITO AO LUAR"
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