
SOU GAY 1
Data 07/12/2009 04:30:08 | Tópico: Poemas -> Introspecção
| Fito estes pinheiros bravos Erectos como cardos Que se lançam da terra Firmes e seguros como penedos Esbeltos como pavões À beira de um lago cristalino Num estridente grito Emudecido!
Não sei porquê... Lembro-me de mim…
Há neles algo de imponente De esplendoroso De omnipotente Alguma coisa que se escapa Como gelo liquefeito Por entre os dedos.
Talvez seja coragem... Talvez medo!
Detenho-me nos rostos Que se assemelham ao meu... Até dos conflitos tenho saudades!
Que foi que perdi Ao longo dos passos cruzados No estender de uma vida Que passou pelos sonhos Sem uma promessa Ou despedida?
Onde está a minha verdade?
Alimento de ciúme a paixão Que não tive Agradeço ao espelho o sorriso Que não esbocei Brigo comigo Para manter acesa a chama Do amor Ouvi-lo implorar perdão Acreditar que me deseja Para além da ilusão!
Ninguém me pertence… Nem os corpos Que entre as mãos retive Nos fugazes momentos de perdição Foram meus! Na cartilha do desejo Aprendi com todos eles A repetir um adeus.
Que sonâmbulo pesadelo Ao sonho sobrevive?! Que luto estampou Na minha alma E levou A esperança que tive? Que espelho se quebrou no rosto? Que algema atou os pulsos? - O garrote da vergonha De ser quem era Fez os sentimentos reclusos!
Hoje Construo labirintos De teias de aranha Sentimentos e vontades Perdidos no tempo Amo no silêncio das ruas Choro nas noites escuras Com o abandono que me afaga Com mãos de relento.
Enteado das amarguras Semeadas a medo Num chão de recusas feito Improviso angústias próprias Filhas da covardia Madrastas do degredo!
Quem tem por palavra a chave Com que decifre o enigma Do meu espelho?
Coragem…
Bastava ter olhado o mundo de frente Sem medo Sem vergonha Sem cadeias Bastava ter gritado - Sou eu! Sou assim! Para que todo um futuro Respondesse: - Estás aqui!
Agora Apenas um destino sem voz Retalha a ambição de uma vontade Que foi minha sem eu querer Que me pertence sem lhe pertencer Que me escapa por entre os dedos Como gelo liquefeito…
Ainda oiço o seu murmurar Irónico: - Bem-vindo Ao país dos segredos!
António Casado 22 Julho 2008 Livro AMOR IMPERFEITO IGAC 4558/2011
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