
O livro de todo o conhecimento(XII)
Data 07/12/2009 01:26:31 | Tópico: Textos
| É difícil decidir o que fazer nesta tendência continuada de descida das cotações dos títulos em Bolsa. Vender agora? Só acreditando que a queda se irá acentuar. Mas quando será o momento para voltar a comprar? E se as cotações continuarem a cair mais e mais? O meu primeiro pensamento, depois de uma desvalorização de dez a vinte por cento de alguns dos principais títulos tem sido comprar, não é vender, porque acredito que eles vão recuperar de um dia para o outro. O optimismo ou a expectativa positiva, muitas vezes, impede as pessoas de tomarem decisões sensatas. Mas o pessimismo pode levar a decisões precipitadas de que nos arrependemos. Deixei o computador ligado e fui tomar o pequeno-almoço. Ainda era cedo para ligar a Teresa. Era preciso ouvir o que havia, afinal, para saber sobre maus tratos, violações, masoquismo, aberrações sexuais… . E saber junto da polícia qual foi o procedimento seguido no que respeita ao meu automóvel. Não estava com fome, mas engoli a custo uma torrada com manteiga e uma chávena de leite quente com chocolate. Contrariamente ao dia de ontem, que começou normalmente, no dia de hoje, já comecei com muitos problemas para enfrentar. Às nove horas e dezassete marquei o número de Teresa, mas não atendeu. Liguei para a enfermeira Cândida. - Sim, sim, Dr. Veríssimo? - Olá enfermeira, bom dia, está tudo bem? - Ainda bem que ligou, que aflição, meu Deus! Tentei inúmeras vezes contactá-lo, mas o Dr. tinha o telemóvel inacessível. Já estava preparada para ir à polícia se não conseguisse localizá-lo. Que é que lhe aconteceu ontem? - Como? O que é que soube? - Pouco depois de lhe ter telefonado ontem a avisar que havia muitas coisas escabrosas que deveria conhecer sobre Teresa e A. Carrancas, recebi uma mensagem anónima a dizer que o carro do Dr. foi encontrado abandonado sobre a ponte D. Pelayo. - Só isso? - Só. - E foi. Eu também soube disso pela própria polícia. - Que é que aconteceu? - O que eu sei e só isto lhe garanto é que enquanto estive no tribunal com a Teresa, alguém me furtou o carro e eu vim para casa de táxi. - Ai que alívio! Puxa! Fiquei apreensivo, mesmo preocupado, com a origem e o possível significado da mensagem anónima que alguém enviou à enfermeira. O furto do automóvel não aconteceu por acaso e havia sinais de estar relacionado com algo mais em que me queriam envolver. Mas o que seria? Não quis que a enfermeira percebesse quanta importância eu dava àquela mensagem e, fingindo ignorar o teor da mesma, mudei de assunto. - Enfermeira Cândida, não consegui contactar com a Teresa há momentos, por isso lhe liguei. - Teresa está em casa mas tem o telemóvel desligado até tarde. - Era para saber dos tais pormenores escabrosos a que se referiu ontem e que podem ter relevância para o processo. -Se não se importar, acho preferível de tarde, às 15horas. Pode ser? -Pode, está combinado então. Pela janela pude ver a melhoria do tempo. Já não chovia e o vento cessara. O Às andava a inspeccionar o exterior e não se detinha a farejar sinais de presença humana recente. Nos últimos tempos a casa parecia-me assustadora, tanto pela sua história como pelas suas dimensões. Havia imensas coisas que o Às não poderia farejar. E tornara-se uma obsessão que exigia todo o tempo de mim. A última descoberta que fiz, numa tímida incursão pelos subterrâneos, no dia vinte e quatro, foi um conjunto de vinte e quatro bíblias manuscritas, em muito bom estado de conservação. Essa descoberta criou-me receios e preocupações adicionais, nomeadamente, quanto a defesa e segurança de um património que suponho de valor inestimável. Mera coincidência ou não, o facto de serem vinte e quatro obriga-me a especulações e conjecturas, a primeira das quais foi ser esse o número de horas que tem o dia e, logo a seguir, o simples facto de as ter descoberto no dia vinte e quatro. Depois, quando decidi voltar a colocá-las no local donde as havia retirado, os sinos do campanário da igreja badalavam as vinte e quatro horas.
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