
O Relógio
Data 25/06/2007 00:03:53 | Tópico: Acrósticos
| À luz inestética apoiada na do Sol Plenamente escondida Sento-me numa cadeira pesada e clássica Condizendo com a mesa de pedra escura E escrevo. Sinto-me doente e escrevo. Estarei realmente doente? Ou demasiado saudável Que a saúde me pareça debilitada? Olho para a rua Através do vidro da montra E vejo a cidade. Lá fora, o correr… A pressa… Os agasalhos pesados e quentes Das gentes que por ali andam É tudo tão escusado Mas tão inevitável. Ao fundo, o Tejo observa, passivo Embrulhado no frio dos dias de Dezembro. E o eléctrico passa no eco Das melodias natalícias. Os passos aumentam, apressando os corpos… Cá dentro, sai uma bica. Cheia. Escaldada. Italiana. O engraxador debruça-se sobre os sapatos Dos senhores idosos Frequentadores do bar E conta uma história antiga ao cliente Coisas lá da terra… O cheiro activo da graxa Encosta-se ao odor dos cachimbos Do cliente ali sentado Em conversa de prosa. Eu continuo a escrever… Contemporaneamente doente. Doente de ruídos surdos Cheiros a nada e pressas de tudo De falas e gestos inúteis Em mim, tão deslocados. Sinto sede de emoções, carências, solidão… E lá fora, as rodas, os passos, o cansaço… E até o Tejo, de tão demasiado perto Não sente a sede! Convido-me a partilhar comigo O jogo do Presente Para ganhar a água do Futuro. E o acordo inebriante é intenso de tão frágil… O odor dos cachimbos aumenta Colando-se às vestes. O Relógio clássico e oval De números romanos Bate as 13 horas. A precisão do relógio Contra a natureza indestrutível da matéria Em busca do ritmo da vida…
Manuela Fonseca
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