
Ser criança, mas em qual mundo?
Data 15/10/2009 02:41:36 | Tópico: Poemas -> Tristeza
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Hoje, é dia das crianças! Mas indago o que comemorar? Quando vivem nas praças a mendigar Não têm mais forças, nem por fome chorar Têm suas curtas existências, em bombas a apagar
Hoje no Afeganistão, não são mais felizes suas andanças. Fustigadas nas intempéries, guerras em série e barbáries O brinquedo mais familiar é um fuzil que fere e aborta A vida deixou de ser, o sonho cortado, o corpo mutilado, O futuro se confunde com o presente, a natureza ceifada
Hoje nas escolas, A alegria é substituída pela violência e pelo medo Como entender estes muros erigidos pelo mundo? De um lado, a submissão, a vida marginal, a fome total De outro, a dominação, a vida central, o poder do capital
Hoje o que vêem e com que brincam estas crianças? Precocemente se transformam em guerreiros... Mimetizam sangue derramado, destruição, vingança, Nas figuras dos brinquedos, desenhos animados, Nos vídeos, games, lutas, jogos, de fogos e mortes...
Hoje mais que nunca, O mundo perdido dos adultos se descortina Em velocidade estonteante, abolindo a infância, Reduzindo a um triste cenário diante Da triste decadência humana...
Hoje quais são os heróis e imagens que são vendidos Às pobres crianças do mundo? Hoje aqui, ali e acolá, cegamos nosso olhar Diante das injustiças, é mais cômodo silenciar, calar Nem toleramos quando clamam por Alá
Hoje nas ruas do mundo Desiguais em quase tudo E as nações desenvolvidas assistem mudas O lento genocídio da diversidade, Ainda em sementes ou mudas verdes
Hoje se fala em nome da segurança E são arrastados em uma longa mordaça Pais, filhos de outras terras cuja imposta desgraça É combatida com sentença de morte, Em nome de uma suposta (como no Iraque) ameaça
Hoje se fazem campanhas sórdidas Em nome das crianças, esporadicamente São arrecadadas fortunas sólidas Mas a desigualdade não se combate com misérias Este modelo é sufocante, injusto, imperial.
Hoje, como no passado, A carroça da história não deixará impunes os invasores, Assim foi com os bárbaros, Alexandre, Gêngis Khan, No mundo moderno com britânicos, russos, americanos, Mesmo com os mísseis atingindo o coração desta gente...
Hoje como ontem, Jovens como no massacre de My Lai, no Vietnã Vivendo isolados pela nefasta guerra em suas aldeias, Como uma estrela distante desponta em anã A barbárie ocidental elimina velhos, mulheres, crianças...
Hoje se desnuda o véu da inocência, Ainda precoce, na curta infância, Na ampulheta do tempo, que célere se esvai Nos passos em terrenos minados, amputados Mais um corpo que cai, mais um anjo que vai...
Hoje, choras pelas torres gêmeas e vítimas fatais (talvez mais pelas torres), mas amanhã, Mortes de inocentes serão contadas nos livros de história E justificadas como hoje como deveras necessárias Dir-se-á certamente que se combateu o Evil, o Leviatã,
Hoje se fala em combater em nome da liberdade, Mas “liberdade” dos capitais que dominam o mundo, Asfixiam nações pobres, ditam suas regras sem piedade, Modelo de democracia que é ditado pela sobrevivência E força do mercado de Ases, sem fronteiras, sem limites
Hoje como ontem, Em tempos de internet e controle remoto A humanidade vive o velho dialético conflito Ser e ter, ganhar e perder, Conquistar e dominar, submeter e poder...
Hoje, ontem e sempre, A chama sobrevive eternamente Na Divina e inacabada obra do universo Não prescinde de cada átomo, partícula ou semente Sempre se transformando em esperança, E tem na criança o símbolo do Verbo.
AjAraújo, reflexões sobre o Dia Internacional das Crianças, Outubro,2001.
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