
COMO II
Data 11/10/2009 17:49:30 | Tópico: Prosas Poéticas
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Como ter sem saber que tenho. Como ser sem saber que sou verdadeiramente. Como dar sem que a isso só me agarre. Como gritar ao vento sem que uma única voz se faça ouvir. Como cão sem osso jogado no deserto. Como amar sem ser amado. Como longe na distância mas perto do coração. Como o silêncio ensurdecedor de quem morre por dentro. Como a ilusão nas mãos da razão. Como a liberdade roubada a uma esquina. Como a natureza em perfeita sangria sendo malquista pelos poderosos. Como a criança que cresceu depressa demais. Como a fobia e o vício nos olhos de um adolescente. Como o vinho para curar todas as dores, de mais um dia de exploração no trabalho. Como trabalhar de sol a sol sendo espancado pelo patrão. Como a mulher de mil sevicias se calando. Como sendo violada e ultrajada ante o seu bom nome. Como o bebé que morreu prematuramente. Como o choro e o grito dos que há muito perderam o senso comum. Como que explicar-me e ninguém me entender. Como morrer por asfixia na sobredosagem da eterna solidão. Como um jardim sem flores. Como dizer bem alto NÃO ao passado. Como sofrer as dores de quem não se reconhece mais. Como quem caminha sem saber qual dos lados escolher. Como apelar a todos os sentidos para afastar os maus presságios. Como ser o povo que luta diariamente para se realizar. Como ser a poesia esquecendo-me de mim.
Jorge Humberto 10/10/09
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