
De noite e só
Data 05/10/2009 14:30:38 | Tópico: Poemas
| Foram-se já todos deitar menos eu que fiquei só, só como sempre, no meu quarto com o rádio. Rebusco o pensamento na hipótese do poema. O espelho em frente revive-me a imagem gaiata que podia ser não fora esta solidão a consumir-e a cada instante, a cada bocejo de madrugada. Lá ao fundo, o castanho tão vulgar dos olhos, vivendo em marasmo de sonhos, fortalezas de revolta. Como me sabe bem esta paz!!! Este encontro comigo mesma, a meio da noite e que nem sequer combinei...... Relembro dias passados, em que fui brinquedo de vidro, moinho de ilusão, flor vermelha morrendo de tédio e sorri por me saber diferente. Lá fora tudo dorme. Nada se ouve, tudo parece estagnado mas no entanto, tudo acontece...
Há crianças nascendo, mães aflitas gemendo, parindo frutos de amor. Há homens agarrando mulheres com braços tenazes ávidos de sexo, agonizantes de prazer. E há mulheres que se prostituem a troco de dinheiro, dum afecto semi-ternura quando ainda são crianças.... Há cavaleiros da noite poluindo a calma com escapes de motorizadas, na procura de auto-realização entre Lisboa e Cascais. Há guardas nocturnos tremendo à geada que cai mas de olhos abertos, velam enquanto dormimos... Há tentativas de assalto e violação enquanto padeiros começam já fazendo pão. Há seres morrendo agitados, calmos, sofrendo ou até pecando de repente. em plenas ruas da cidade, nos carros que travam nas curvas da auto estrada ou até na cama onde ninguém dá por isso! E depois ainda há o pio da coruja que arrepia e fere a beatitude nocturna dos gatos....
Sim, como poderia esquecer-me dos gatos que a esta hora são semi-humanos nas relações sexuais? Existe um mundo que ignoramos, uma nova vida que se respeita, se despreza, se marginaliza ou simplesmente se recusa. E há ainda, quem se encontre, escrevendo frases sem sentido, pensando coisas impossíveis, relembrando tempos ou procurando simplesmente compreender apenas e só, para poder aceitar.
Filinha
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