A formiga Manuela
era uma pobre suicida,
enfadada com a própria vida,
inglesa e amarela.
Em bairro de lata, favela,
era figura destemida,
meio louca e aguerrida,
viciada em toda a mistela.
O formigo amigo dela,
chulo, de profissão vendida,
era personagem comprometida
com a prisão e a sua cela...
Os formiguinhas, prole sem trela,
meninos de rua, sem saída,
beco de estrada proibida,
caçavam de noite e de dia à janela.
Esparrela atrás de esparrela,
dava o litro decidida
a mudar o seu mundo, na lida,
com o suor na fronte, que a revela.
Achava contudo a vida bela,
com a corda no pescoço torcida,
que a cigarra, amiga, era mulher da vida,
e devia o corpo a toda a cidadela.
Sou fiel ao ardor,
amo esta espécie de verão
que de longe me vem morrer às mãos
e juro que ao fazer da palavra
morada do silêncio
não há outra razão.
Eugénio de Andrade
Saibam que agradeço todos os comentários.
Por regra, não respondo.