Um ipê solitário resiste
No meio do asfalto rachado.
É flor que ousa nascer
Onde só o cinza é respeitado.
A noite cai com olhos vermelhos,
Sirenes e passos apressados.
Luzes de neon fingem beleza,
Mas escondem becos calados.
O morro vê do alto os arranha-céus
Com janelas que brilham sem alma.
Lá embaixo, a quebrada pulsa rimas
De um rap que sangra e acalma.
Gente vive conectada
Mas se toca cada vez menos.
Likes não curam feridas
De quem acorda no veneno.
Mesmo assim, a cidade respira,
Mesmo ferida, ela grita vida.
Nos muros, nos beats, no olhar:
Ela é dor, é arte, é partida.
Poema: Odair José, Poeta Cacerense