Não pude amar mais nada. Nem a cidade que respira asfixiada sob o peso dos prédios, nem os rostos que se esvaziam nos corredores de vidro. Não pude amar mais ninguém — e, no entanto, amei. Amei no ponto cego, no intervalo entre o toque e o afastamento, nesse lugar onde a mentira se disfarça de verdade, e a verdade, essa desgraçada crua, se despe sem pudor.
E mesmo que eu te minta — e eu minto — a confissão escorre pelas frestas, escura, densa, como vinho entornado sobre lençóis limpos. Porque há mentiras que não sabem mentir direito, que tropeçam em si mesmas e caem aos teus pés, pedindo abrigo.
A verdade seca, essa queima por dentro. Não tem poesia, não tem farsa. É só um sopro áspero contra a pele. E, ainda assim, ela ficou ali, encostada em mim, soprando o óbvio que tentei calar: não pude amar mais claro. Fui sombra e reflexo, carne e intenção. Um abismo disfarçado de porto seguro.
Mas o amor — esse truque antigo — gosta dos labirintos, das frases partidas, dos beijos que não chegam a lugar nenhum. Amei no avesso do amar, onde o gesto não diz o que sente, mas o eco do que finge esquecer. Amei ali, onde o toque queima e o olhar mente. E mesmo que eu diga o contrário, ainda escuto o som do teu nome nas minhas ruínas.
E se amar é se perder, talvez eu ainda esteja lá — soterrado sob o que nunca confessei.
Sou um viajante do olhar, com histórias que se revelam entre lentes e versos. Imigrante em Portugal, trago comigo a saudade do que deixei e o encanto do que encontrei. Amo a poesia que pulsa nas entrelinhas, a música que ecoa nas sombras e a fotografia...