Poemas : 

Não me repitas

 
Veio do nada destilar ódio
a cana-de-açúcar e a uva,
pitadas de pimenta e sódio,
a conta-gotas e nitrila luva
e pôs, esse mesmo nada, num pódio,
veneno que mata, se se faz chuva.

Chegou e disse, de voz em riste:
Dizei todas as coisas inauditas,
e todo o ser inocente que existe
bradou suas verdades benditas.
A liberdade a mais, já a viste,
a menos, todas se tornam malditas.

Foi depois, tal e qual como veio:
Fechado, sem o respirar e mudo,
a feder a tudo, o sem asseio,
sem esse nada que também é tudo.
Que sem voz, é fraco e mui alheio.
Um muito pouco caso de estudo.


Sou fiel ao ardor,
amo esta espécie de verão
que de longe me vem morrer às mãos
e juro que ao fazer da palavra
morada do silêncio
não há outra razão.

Eugénio de Andrade

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Por regra, não respondo.

 
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Rogério Beça
 
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Enviado por Tópico
Beatrix
Publicado: 27/02/2025 20:03  Atualizado: 27/02/2025 20:03
Da casa!
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 Re: Não me repitas/Rogério Beça
.
Olá, Rogério.

Como sempre, um presente para os lusos. Gostei muito.

Pôr um nada num pódio? Mas não te repetirei.

Obrigada e parabéns pela excelência da escrita!

Ab
Beatrix