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Enviado por | Tópico |
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Rogério Beça | Publicado: 17/04/2017 18:46 Atualizado: 17/04/2017 18:48 |
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![]() Poema muito curioso, colocado sob forma de diálogo, em que avançamos estrofe a estrofe nas falas do Lobo e da Lua.
Na primeira fala (quase soa a peça de teatro) entra o Lobo duma forma fortíssima, primeiro lamento em que demonstra o estado em que se encontra (melancolia). “Melhor que ser amado\... É amar!\Pior que ser odiado\... É odiar!”. Apesar de se cair num lugar-comum, não deixa de ser uma reflexão válida, que vai contra a ideia que não há nada como amar e ser amado. Fala-nos do amor, sensação ilusória, mas magnífica, e sem se desejar nada em troca, nem a reciprocidade. E do ódio como manifestação do mais natural e desprezível do sentimentos. O ódio? Que odeiem os outros, podemos pensar lendo o que nos diz o Lobo. Na segunda fala entra a outra personagem. Esta estrofe determina o papel da Lua em todo o poema. Num tom maternal, vai transmitindo ao Lobo que vale sempre a pena. “Reveste a tua virtude” (já que a despiste) \ “amando em qualquer magnitude”, muito belos estes versos, poderemos abdicar dessa coisa lamechas? Amar será sempre melhor do que pior. Mas o lobo não se sente convencido e explica-se nas seguintes estrofes. Mostrando várias formas de amor disfarçadas de qualidades universais: “ fui filho a quem me criou\ fui irmão a quem me sorriu\ fui pai a quem me amou”. Fui, fui, fui… Um pretérito perfeito que sublinha a mágoa. Na resposta, a Lua elogia o lobo e admite-lhe as qualidades, elogiando “o saudoso ventre que te acendeu”, mais uma luz que surgiu no poema. Mas de que se queixa verdadeiramente este Lobo, aparentemente, sem alcateia? A quinta estrofe di-lo bem; colheu, plantou, floriu, perdeu. E ao perder a inocência “no dialecto da decência” (bom) achou a melancolia. Mas o Lobo não é apenas um ser lamuriento e queixoso. Faz a promessa, talvez já influenciado pela Lua que lhe fala ao coração, de ser ele mesmo, mas retirar o Mau do Lobo. Imagem de que vive, que o desumaniza e diaboliza. “Em contos de fadas” que não passam de mitos. Os próprios animais não são bons ou maus, eles podem ser perigosos para as pessoas. Para se alimentarem ou para se defenderem. A sétima estrofe perde algo com o seu último verso: “por contadores babados”. Acho que o adjectivo foge demasiado do resto de linguagem. Na última estrofe compete à Lua o lado maduro e doído da parelha. Tendo para com o Lobo a intenção de justificar as faltas da “humanidade bruta”, da sua ignorância (Einstein chamou-lhe estupidez) infinita, incapazes de entenderem a natureza e compreenderem a seu legado: O de serem Lobos a procurar o melhor de si mesmos. O poema é extenso, sem ser uma epopeia. Nunca perde estrofe após estrofe a sua força, quer na linguagem, na beleza dos seu versos e no rumo que o poeta lhes quer dar (excepção ao verso supracitado). Gostei muito. |