Na verdade tenho gosto de fruta mordida
Na mentira sou feito de poesia lida
Sou amor e ódio
Sou alegria e tédio
Sou a calma da montanha
E a fúria do vulcão
E se sem coração sou sem alma
Amando a calma da maçã mordida
Sou a manhã cinzenta
Chorando por um coração partido
E aí sou meio ida na volta
Sou meio volta na ida
Nada, sou meio gota caída
Na tempestade sou amor
Sou meio colo da vida
Sou meio vida do colo
Meio pássaro, meio fera ferida
Sou meio cego
Meio bandido
Meio visão
Meio tudo de poucos olhares
Meio segredo diante da ilusão
Meio amigo
Meio do outro lado
Meio se lado, meio só
Meio com saudade sentindo saudade
Quando brilho de tantas faíscas, sou isca
Às vezes sou meio procurando amor
Às vezes sou inteiro na força da dor
Cheio de amor por meio faltando amor
Cheio de corpo por meio corpo de dor
Cheio do meio e do meio e do medo
Que é um só
Às vezes tenho três lados de meio
Em um sou sem meio
E quando sou meio me sinto só
E na outra metade mora o outro meio
Partes amputadas, arrancadas de nós dois
Dois meios de medo amar
José Veríssimo