Costumava andar pela rua, (não pelas ruas, pela sua rua, aquela onde morava) matando o tempo de cada minuto de um relógio avariado, nos passos perdidos de uma vida vazia. Ainda a madrugada esfregava os olhos de sono e já se ouvia o bater da porta a assinalar a primeira das incontáveis vezes que se voltaria a ouvir até ao fim do dia. Meia dúzia de minutos separavam o som de saída e o da entrada de casa, num ritual diário e constante desde há mais de dez anos, desde o dia em que lhe fora arrancado à força, o único sentido que conhecia da vida - O trabalho! (Nos dias encostados a esse dia, ainda houve quem o visse na paragem do autocarro que costumava apanhar, vestido como deve ser e composto com uma gabardina cinza, de pasta na mão. Mas o autocarro vinha e ele não entrava... esperava sempre pelo seguinte). Um ritual a que se habituara, bem como os vizinhos, que o toleravam com o devido desconto que se dá a uma alma que se penitencia por não saber como lidar com o simples facto de estar vivo e o dia continuar a ter vinte e quatro horas na mesma, como para todos os outros mortais. Afinal de contas, poderia acontecer a qualquer um! Do corpo, restavam-lhe os ossos que lhe serviam de cabide às vestes sujas e desgastadas mas onde ainda se notavam vestígios do corte fino de quando eram novas e que a profissão de outros tempos lhe exigia. Apesar da demência notória, ainda havia quem a si se dirigisse, no cumprimento respeitoso de um simples "- Bom dia, sr. engenheiro!", ao qual ele respondia com um som quase imperceptível, ou então, na maior parte das vezes, com um ligeiro aceno de cabeça tentando não importunar a cinza do cigarro que lhe pendia do canto da boca. Certo dia, ninguém o viu na rua e até os vizinhos estranharam o silêncio da porta que não mais bateu...
*Uma prosa tocante. Vivo um período em que assisto meu pai, tão querido e amado, esvaindo-se um pouco a cada dia...e dói. Por mais que seja esperado-ele tem 84anos- a introspecção dele é progressiva, dói. Enfim, emocionei-me. Beijo-te Ka*